Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Temos um prestígio a defender

Melo Clemente - 27 de Junho, 2017

Raul Fragoso Ferreira Duarte quer superar a prestação da edição passada

Fotografia: M.Machangongo|Edições Novembro

Jornal dos Desportos - Seleccionador nacional que avaliação nos pode fazer das quatro semanas de preparação?
Raul Duarte - Bom, o primeiro ponto que eu acho ser extremamente importante é enaltecermos o comportamento dos jogadores, a atitude que eles tiveram, a disponibilidade que tiveram durante os treinos, o empenho total e quanto a isso não nos podemos queixar de absolutamente nada, quer em relação aos horários, quer em relação ao facto de estarem todos os dias no treino e aquilo que são as informações que nós passamos. Pelo menos, tentaram perceber e responder positivamente àquilo que foi solicitado. Portanto, o resto são questões de ordem técnica e táctica.

JD - E naquilo que foi o trabalho propriamente dito correspondeu à expectativa?
RD - Sem dúvidas. E deixa-me dizer-lhe que a sensação com que ficamos é que se tivéssemos tido a possibilidade de trabalharmos durante oito semanas poderíamos inclusive interferir naquilo que são os fundamentos de jogo, naquilo que é a forma como devemos passar, seleccionar o passe, a forma inclusive como finalizamos. Portanto, poderíamos influenciar nisso, melhorar no comportamento daquilo que é a táctica individual ofensiva e defensiva. Com o período que tivemos fomos obrigados a dar atenção a outro tipo de situações, mais ligados à organização ofensiva e defensiva, mas de quatro contra quatro e cinco contra cinco, do que propriamente um contra um e de dois contra dois. Gostaríamos na verdade influenciar um pouco mais no crescimento técnico individual defensivo e ofensivo e em relação também àquilo que são as tomadas de decisão, quer ofensivo, quer defensivo.

JD - O tempo acabou por ser o principal inimigo da equipa técnica, uma vez que pretendia trabalhar por um período de oito semanas, mas prepararam-se em apenas quatro. Ainda assim, conseguiram transmitir tudo aquilo que pretendiam?

RD - Tempo insuficiente, porque análise hoje (sexta-feira) foi o nosso vigésimo oitavo treino com seis jogos de controlo realizados, portanto, significa que sem os seis jogos de controlo acabamos por realizar apenas 22 sessões de treinos. O que é que se pode alterar consideravelmente em relação àquilo que são os hábitos, os comportamentos em todas as fases de jogo, quer a defender, quer a atacar, contra atacar e a transitar defensivamente, repito o que é que se pode melhorar nestas vinte duas unidades de treinos? É evidente muito pouca coisa. Foi sem sombras de dúvidas uma luta, apesar da resposta positiva dos jogadores mas, apesar disso temos que acreditar que vamos fazer um bom campeonato do mundo.

JD - Precisava de quantas semanas para poder implementar a sua filosofia se assim podemos considerar?
RD - Olha eu acho que tendo os jogadores todos disponíveis, oito semanas e com dois micro-ciclos de controlo, a jogarmos por exemplo com uma Itália, com um Egipto que esteve a fazer dois torneios em Espanha, e a própria Espanha que jogou em casa e logo de seguida partiu para mais um torneio em França, porque é com estes jogos contra equipas do seu escalão, da sua faixa etária, que se avalia com certeza a evolução individual e colectiva da equipa. Então oito semanas e dois micro-ciclos eu acredito que a selecção estaria bem preparada para disputar e realizar um bom campeonato do mundo. Claro que não íamos ganhar o título mundial mas, íamos competir bem com os nossos adversários. Existe um chavão utilizado pelo saudoso presidente moçambicano Samora Machel, que dizia que as vitórias preparam-se e eu acredito plenamente nisso. Acredito acima de tudo no trabalho, no profissionalismo, embora creio que não foram só os condicionalismos financeiros que impediram que a selecção pudesse fazer uma boa preparação.

JD - Então Angola parte para esta prova sem qualquer meta em função da preparação precária que teve?
RD - Claro que não. Independentemente das peripécias que marcaram a preparação nós temos um nome, um prestígio a defender e é com este espírito que vamos disputar à fase final do campeonato do mundo do Egipto.


JD - E porque que diz que não foram só os condicionalismos financeiros que atrapalharam a preparação?
RD - Eu digo isto, porque desde Agosto do ano passado que todos nós sabíamos que em Julho de 2017 iríamos disputar à fase final do campeonato do mundo na categoria de sub-19 e, em face disso, eu acho que se poderia ter sido acautelada uma série de situações que nos permitissem na verdade trabalhar bem. E eu não vou deixar de dizer a palavra. Também faltou-nos organização.

JD - Será que podemos aqui repartir a responsabilidade desta preparação atribulada entre o Ministério da Juventude e Desportos e a direção da Federação Angolana de Basquetebol?
RD - Naturalmente que sim. Portanto, disso não posso ter dúvidas e houve na verdade outro factor que não ajudou. O facto das eleições terem sido realizadas em Fevereiro também não ajudou. Eu entendo que este tipo de situações não se podem repetir no futuro. O ministério tem que assumir a responsabilidade das eleições sempre serem feitas entre Junho e Setembro eventualmente ou Agosto para permitir que o elenco que entre para a federação possa ter tempo para programar tudo aquilo que são as obrigações não só internas mas também externas.

EM REGISTO
Seis jogos de controlo realizados


Apesar do grupo ter realizado apenas seis jogos de controlo, o seleccionador nacional considera razoável o número de jogos amistosos disputados.Em seis jogos realizados, o combinado nacional obteve três derrotas e igual número de triunfos, números que deixam satisfeito o seleccionador nacional.

O cinco nacional anotou 367 pontos, o que representa uma média de 61,1 pontos sofridos em cada desafio, tendo sofrido 359 pontos, obtendo uma média de 59,8 pontos por cada partida."Deu para jogar, deu para repetir, deu inclusive para criar algumas rotinas, por isso, gostaria mais uma vez de agradecer os atletas do Grupo Desportivo Interclube, da Marinha de Guerra, Atlético Sport Aviação (ASA), assim como os seus treinadores e dirigentes por terem proporcionado esta colaboração à Selecção Nacional. Creia que as equipas deram-nos uma grande ajuda, caso contrário, seria extremamente difícil para nós disputarmos à fase final do campeonato do mundo".

Técnico define meta
Sofrer o menor número de pontos possíveis durante a fase final do Campeonato do Mundo de basquetebol masculino em Sub-19, competição que arranca na próxima sexta-feira, constitui prioridade premente de  Raul Duarte.Se nós definirmos entre os 60 pontos sofridos em cada desafio, darnos-ia uma margem de equilibrar os jogos ou eventuais vitórias. Portanto, é outra mensagem que temos procurado passar entre os jogadores, sofrer poucos pontos, defendermos no limite.

Espero muito sinceramente cumprir com estes pressupostos todos, para que eventualmente, possamos melhorar a nossa classificação, em relação às prestações passadas. Repare que as melhores classificações de Angola, mesmo com boas gerações de jogadores, porque muitas vezes também têm a ver com a questão geracional. Mesmo com as gerações boas que tivemos Angola nunca foi para além do décimo terceiro, décimo quarto lugares. Nós temos esta referência e vamos lutar para que consigamos suplantar estas classificações, porque o campeonto do mundo é muito giro em função de todas as equipas jogarem até ao final da prova".

CONSTATAÇÃO
Falta de eficácia preocupa treinador


A falta de eficácia dos integrantes da Pré-Selecção Nacional de basquetebol masculino, que projecta à fase final do Campeonato do Mundo é um dos aspectos que mais preocupa o técnico, Raul Fragoso Ferreira Duarte. Para o categorizado treinador, a falta de eficácia tem muito a ver com o treino e com a técnica.

A eficácia traduz-se em muitas coisas, na qualidade do passe, a eficácia traduz-se na qualidade do lançamento e do volume de lançamentos que os jogadores têm que ter, porque começamos a introduzir é culpa também nossa dos treinadores que permitimos que toda gente faça lançamentos dos três pontos. Portanto, não é verdade que todos sejam lançadores, os espanhóis definem bem isso, há os lançadores que lançam e há os metedores porque metem. Ou seja, existem aqueles que metem a bola e aqueles que lançam. Portanto, lançam, lançam e não metem nada. Em Angola, há poucos metedores e há muitos lançadores infelizmente, e é, por isso, que as percentagens são muito baixas.

JD - E conseguiu mudar este quadro em quatro semanas de treinos?

RD - É evidente que não. Portanto, não se pode acabar com os problemas das ineficácias em um ou dois meses de trabalho, é um trabalho que leva anos.

JD - Será que esta ineficácia advém em certa medida da indisciplina táctica?
RD - Com certeza. Não há selecção de tiro, qualquer um ao primeiro passo lança dos três pontos, mesmo em contra ataque e algumas vezes em vantagem numérica lança-se dos três pontos, então, não há muita coisa para dizer. O que deverá existir é a compreessão de todos, responsabilidade de todos, fundamentalmente, em difinirem regras para as suas equipas, porque nós não somos iguais aos jogadores europeus, americanos, porque quando chegam aos 21 anos têm 12, 14 anos de prática, e os nossos jogadores aos 21 anos , muitos deles têm cinco, seis anos de prática apenas. Temos que treinar de forma diferente, segundo definir regras que existiam no nosso basquetebol e que paulatinamente foram sendo esquecidas.

JD - Quais são os outros sectores que pretende melhorar para que a Selecção Nacional possa estar na prova ao mais alto nível?
RD - O que há para melhorar? És capaz de não acreditar, existem coisas muito básicas em que o grupo peca. A Selecção tem problemas na reacção e na compreenssão do lado da bola e do lado da ajuda. Muitas vezes a bola está na direita alta, o jogador do lado da ajuda, quer na esquerda baixa, quer na esquerda alta, que deviam rapidamente registar a sua posição,  fica agarrado aos seus defensores. A Selecção tem ainda problemas a nível do bleoqueio directo. Quando eu lhe falo da questão do tempo, era precisamente para debelar estes problemas todos".

JD - Mas ainda restam alguns dias para o embarque da delegação.....
RD - O que vamos agora fazer nestes últimos dias que antecedem a nossa viagem para o Egipto é com ajuda dos vídeos mostrar-lhes o que deveriam fazer e o que eles fazem. De facto, uma coisa é falar e outra é ver.

JD - A nível ofensivo como é que estão?
RD - "Ofensivamente, precisamos de seleccionar melhor o passe, 27 perdas é demaziado e depois é a questão do tiro dos três pontos. Mas também se agente eliminar o lançamento dos três depois não haverá a confiança de quando lançar. Agora o que temos estado a dizer aos jogadores é que não façam lançamentos à longa distância logo no primeiro passe. Temos que procurar penetrar para atrair a defesa e procurarmos situações de lançamentos dos três pontos de forma equilibrada".

PALCO DA PROVA
Selecção segue viagem amanhã


A Selecção segue viagem amanhã, quarta-feira, para Etiópia, em trânsito para o Cairo, palco, a partir de sexta-feira, da fase final do Campeonato do Mundo da categoria.Já com os doze atletas escolhidos para "operação" Cairo, o seleccionador nacional realiza hoje, terça-feira, a última e derradeira sessão de treinos, antes de embarcar para o norte do continente africano, que acolhe a prova mundial pela primeira vez.

A Selecção Nacional vai disputar a fase preliminar do Campeonato do Mundo inserida no Grupo D, ao lado das selecções dos Estados Unidos da América, actual campeão em título, Itália e Irão, respectivamente. Os angolanos enfrentam na estreia, a similar da Itália. No Grupo A estão as selecções da Argentina, Nova Zelândia, Coreia e França. Alemanha, Egipto, país anfitrião, Porto Rico e Lituânia fazem parte do Grupo B, ao passo que Canadá Japão, Espanha e Mali, outro representante africano, figuram no Grupo C.