Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Tenho crença na vitória

02 de Fevereiro, 2017

Rui Campos pode ser o primeiro falante da Língua Portuguesa a integrar o Comité Executivo da Confederação Africana de Futebol caso seja eleito no próximo congresso daquele órgão.

Fotografia: M.Machangongo

Candidato a uma vaga no Comité Executivo da Confederação Africana de Futebol, cuja eleição está marcada para 16 de Março próximo, Rui Campos abre o livro ao Jornal dos Desportos, e fala dos passos que tem vindo a encetar para convencer e merecer o voto. Revela optimismo na sua eleição, em que concorre com Danny Jordan(África do Sul), Frans Mbidi(Namíbia) e Seketu Patel(Seychelles). Em entrevista ao Jornal dos Desportos, fala igualmente das metas competitivas do Recreativo do Libolo, clube que preside e do futebol angolano em geral. À leitura.

 JD - Às portas da nova época futebolística, que balanço faz ao percurso do Recreativo do Libolo até aqui no futebol angolano?

Quando subimos ao Girabola, em 2007, propusemo-nos a formatar a estrutura e os processos do clube, de forma a que num curto período de tempo pudéssemos estar em condições de ganhar o campeonato nacional. E para isso tivemos de investir em infra-estruturas, “know how” técnico e logístico. Foi com muito esforço que o fizemos, e só foi possível devido a alguns patrocínios de empresas privadas, que acreditaram no projecto desde o seu início.
Rapidamente e no espaço detrês anos, conseguimos implementar e tornar consistente os processos de organização e gestão que pudessem permitir ganhar de forma sustentada, isto em 2009. A partir em 2010, daí propusemo-nos tentar ganhar duas vezes em cada cinco anos. O primeiro período correu muito bem, pois nos primeiros cinco anos, entre 2010 e 2015 ganhamos nada mais nada menos que quatro vezes o Girabola, a prova maior do nosso futebol e para a qual nos tínhamos focado. Nesse período de tempo vencemos também uma Supertaça, participamos três vezes na Champions League da CAF, em uma das quais atingimos a fase grupos.
Partimos assim para o período de cinco anos seguinte, 2016 a 2019, com os mesmos objectivos em mente. Ou seja, vencer duas vezes o Girabola. Com mais experiência em todas as vertentes, consequência da aprendizagem que a vivência ao longo destes anos nos proporcionou.

JD – E 2016 foi o ano de partida para este novo ciclo?

Efectivamente foi. Temos a noção que ao abordar um novo ciclo, teremos sempre de mexer na estrutura, sobretudo nos ajustes que é necessário fazer no plantel. Sem provocar nenhuma revolução, tentamos abordar esta nova era, tendo como linhas mestras, acelerar a formação dos nossos jovens; rejuvenescer o plantel da equipa principal; e adaptar toda a estrutura do clube aos condicionalismos que advêm da nova realidade económica e financeira do nosso país.
Apesar das condicionantes, na época de 2016 a equipa praticou um futebol de qualidade, acabamos nos três primeiros, onde andamos praticamente toda a época. Vencemos a nossa segunda Supertaça e vencemos a nossa primeira Taça de Angola. Fazendo assim com que o clube já tenha ganho todas as competições oficiais do nosso futebol.
A transição que estamos a operar paulatinamente, dará resultados no médio prazo. Temos de ser pacientes, a equipa tem qualidade mas está mais jovem, e pode demorar um pouco a mostrar consistência no nível alto de futebol que ambicionamos. Além de mais, os tempos do ponto de vista económico estão mais difíceis, pelo que temos de ter os pés bem assentes no chão e não dar passos desmedidos.

JD – E como está a correr o processo de formação?

Da melhor maneira possível, dentro das condicionantes por que passamos desde o início do projecto. A primeira premissa para uma boa formação são as infra-estruturas. Não temos em Calulo infra-estruturas que permitam que a formação das nossas camadas jovens se faça com a qualidade que pretendemos. Temos projecto para um estádio novo e moderno, para um centro de formação de jovens futebolistas e de alta competição.
Mas para concretizar este projecto são necessários fundos de que não dispomos neste momento. Tudo o que fizemos até hoje deveu-se a iniciativas de carácter privado, e creio que será assim no futuro. Vejo muitas infra-estruturas construídas pelo Estado em várias geografias, completamente ao abandono e sem proveito para ninguém.
E quanto a este aspecto, falo não só no futebol mas também no basquetebol. Mas enfim, são as assimetrias com que vivemos. Mas estamos determinados em que um dia a nossa cidade desportiva seja uma realidade em Calulo.
Nas instancias internacionais do futebol, na CAF ou na FIFA, quando explico a realidade do Recreativo do Libolo, as pessoas têm dificuldade em perceber.
E devo dizer, porque sou testemunha disso, que o Recreativo do Libolo é muito conhecido no mundo do futebol africano. Claro que muito por conta da divulgação que vou fazendo e hoje por exemplo os elementos de várias nacionalidades que integram a CAF seguem o percurso do Libolo com interesse.

JD – O novo treinador já está integrado?

Até aqui está a correr segundo as nossas expectativas. Nós em cada ciclo que se renova, procuramos contratar um técnico com um perfil há muito definido por nós, com estes aspectos fundamentais: carisma; adaptabilidade; competência comportamental; leitura de jogo com acção eficaz; metodologia de treino da nova escola; partilha de responsabilidades com equipa técnica e gestão de grupo agregadora.
A partir de determinada altura conseguimos estabilizar a contratação dos nossos técnicos à volta destas competências. De forma que tudo decorre como o previsto.

CANDIDATURA NA CAF
“Estou resiliente e implacável nesta luta”


JD–E como está a sua candidatura ao órgão máximo da CAF, o Comité Executivo.

Tornei-me candidato em Dezembro passado, e a eleição será na Assembleia Geral de 16 de Março próximo em Adis Abeba. A campanha, onde tenho falado a todos os presidentes das federações africanas sobre a minha visão para o futebol no nosso continente, está a ter boa receptividade, pelo que estou esperançado em ser eleito. Tenho trabalhado para isso. São 54 federações nacionais, cada uma com um voto.
Terei de fazer passar a minha mensagem que é basicamente fazer o futebol africano aumentar a sua exposição e o seu peso no contexto do futebol mundial. Quanto a isso tenho ideias muito próprias e concretas, que tenho exposto a todas as federações. A receptividade tem sido muito boa.
Seria uma honra e um orgulho muito grande ser eleito, pois não só nunca nenhum angolano foi eleito para o Comité Executivo, como também nunca um falante português o foi. Seria a primeira vez que isso aconteceria, o que produziria um efeito benéfico para o futebol de Angola mas também dos países de expressão portuguesa. Vamos aguardar e posso prometer que serei resiliente e implacável também nesta luta.

JD – Fale-nos um pouco do seu percurso na CAF e FIFA.

Desde há três anos que estou por nomeação do presidente Issa Hayatou, no Comité Permanente de Organização dos CAN (AFCON). Na FIFA fui proposto para o Comité de Governance. A participação nas decisões sobre os CAN, deu-me uma experiência muito rica ao nível dos meandros e mecanismos do futebol internacional.
Os tempos estão a mudar e a organização do futebol também. São tempos em que temos de gerir mudanças com muita precaução, para não perturbar a evolução deste desporto que é consumido por mais de três biliões de pessoas.
Mas tenho trabalhado todas as semanas, em prol do bom andamento da competição. Como Angolano é um orgulho, mas sinto-me lá um pouco sozinho. Só lá estamos eu e o Jerson (árbitro assistente), que tem feito desempenhos fantásticos.

JD – Como está a decorrer o CAN do Gabão?

Creio que assistimos a jogos com um nível de futebol praticado que se pode classificar de bom, mas não excepcional. Já ao nível da Organização pelo Comité Local, estamos a assistir a um dos melhores CAN de sempre. Tudo está planeado e executado quase na perfeição. Temos de dar os parabéns ao Gabão, pela organização do seu CAN.

JD – Como conciliar o Recreativo do Libolo com este seu percurso nas instituições do futebol internacional.

Um dia, terei de sair do Recreativo do Libolo, pois ninguém permanece eternamente. Vamos aguardar pelo que vai acontecer ao nível da CAF. Depois do Comité Executivo, pretendo dar outros passos de alto nível no futebol mundial. Mas quem os sócios e órgãos sociais do Libolo deliberarem para no futuro conduzir os destinos do clube, será com certeza capaz de continuar o legado que a actual direcção operacional deixa ao futebol e basquetebol angolano.

JD – Como gostaria de terminar esta conversa?

Com uma frase do genial poeta Fernando Pessoa, “Deus Quer, o Homem Sonha, a Obra Nasce”.

BASQUETEBOL
“Modalidade carece
de um pavilhão próprio”


JD – Fale um pouco da outra modalidade de alta competição do Recreativo do Libolo, o Basquetebol.

O projecto do Basquetebol está no seu nono ano. Os grandes drives que nortearam a nossa actuação desde o início foram: Construir uma equipa sénior que de imediato fosse uma referência, para mobilizar e motivar como referência, os nossos jovens atletas.
Os resultados são francamente positivos, pois vencemos dois campeonatos nacionais, três Taças de Angola, duas Supertaças e a menina dos nossos olhos, a Champions Africana de 2014.Paralelamente a nossa formação evoluiu como esperado, dentro das condicionantes, e este ano as nossas formações mais jovens de Sub-12, Sub-14 e Sub-16 posicionaram-se já no topo do panorama do basquetebol angolano. Não fomos mais além, pois não temos pavilhão próprio, em Calulo. Uma lástima quando vejo pavilhões aí pelo país, sem qualquer uso ou proveito para o basquetebol.

JD–Quantos elementos tem a sua equipa de gestão, o que espera deles?

Não contando com o staff agregado ao grupo de futebol e basquetebol, a gestão/coordenação geral e operacional, é feita por sete colaboradores mais eu.Deles espero competência Comportamental e Compromisso.
E isso eles tem-me dado ao longo do tempo deste projecto. Destes sete colaboradores, três são profissionais, e há quatro que se dedicam ao Recreativo, para lá da sua situação profissional e nem sequer auferem algum valor material com isso. Só um nível do Compromisso muito elevado poderia tornar tudo isto possível.
Especialmente a eles estou e estarei eternamente grato. Na devida altura farei o agradecimento público. Temos combatido juntos neste percurso e eles são verdadeiros soldados. A mim cabe-me salvaguardá-los e como disse um grande general romano, as guerras vão e vêm, mas os meus soldados são eternos.

ESTÁGIO
“Encontramos na Europa
condições logísticas ímpares”

JD – Porquê o clube prefere as pré-épocas fora do país, em outras latitudes de clima diferente do nosso?

Cada clube é um clube e o que é bom para um não quer dizer que seja para outros. No nosso caso, devido à interioridade de Calulo, ao ambiente de vida no dia a dia muito difícil face a muito isolamento, para atletas que nos chegam das mais variadas geografias, é muito importante começar num ambiente díspar, tendo em vista adiar o mais possível os níveis de saturação. Paralelamente, encontramos na Europa condições logísticas ímpares, com todas as condições para se fazer um trabalho eficaz.
 O clima mais frio, permite simultaneamente fazer um trabalho com mais carga, sem que haja problemas postos pelas temperaturas elevadas, como desidratação por exemplo. As lesões próprias da pré-época, são debeladas mais rapidamente, devido às condições de clínicas melhor equipadas. No final, o importante é que entre o final do estágio e o início da competição estejam salvaguardados uns dias para readaptação à temperatura.

JD – O contributo dos técnicos que têm passado pelo Libolo tem sido uma mais-valia?

Sim, nos aspecto desportivo e na sedimentação da nossa estrutura e dos nossos processos. Nesse âmbito o clube já tem uma cultura própria, que é praticamente imune a alguns acidentes de percurso: ou porque um técnico quer actuar como “one man show”, o que não está no perfil que traçamos e já tivemos um caso. Já tive um treinador que pretendia despedir jogadores em pleno jogo, durante uma substituição. Ou outro caso, de um técnico que chega a Angola, desenvolve o seu trabalho e quando se vai embora diz que veio ensinar os angolanos a jogar futebol. Enfim há sempre pontos positivos e outros nem por isso. Volto a repetir, para treinar o Libolo ou colaborar com o Libolo, a competência técnica não chega pois é ainda mais importante a competência comportamental.
A interioridade obriga a uma resiliência maior por parte dos nossos colaboradores, e muitos não estão preparados. Atingem níveis de saturação muito rapidamente ou menos rapidamente. Angola tem sido também na vertente desportiva um destino para muitos profissionais do desporto em Portugal, mas temos de ser muito criteriosos na selecção e recrutamento, pois não raramente saturam-se e deitam culpas em todos e no país. Alguns deles que nunca tiveram na vida as condições que vieram usufruir, e quando voltam para lá vão treinar a quarta divisão ou dar aulas...

JD – Têm-lhe perguntado muitas vezes qual o segredo do sucesso do Recreativo do Libolo. Mais uma vez insistimos na questão.

Olhe, eu tenho respondido que não há segredos, mas sim trabalho. Mas vou pela primeira vez dizer algo, que só costumo dizer ao grupo de trabalho, quer seja no clube, quer seja nas empresas que dirijo. O Objectivo é RESULTADOS. Para isso necessitamos de três ingredientes indispensáveis: Competência técnica; Liderança e Competência Comportamental. E em mais de noventa por cento dos casos que vejo por aí, a ausência de Competência Comportamental é gritante. E na base de tudo está algo sem o qual nada funciona: COMPROMISSO. Mas não se trata de compromisso colectivo como oiço para aí apregoar. É mesmo Compromisso INDIVIDUAL para com o colectivo. Que é uma coisa diferente. Este é o meu segredo.

JD – Que opinião tem sobre o número de jogadores estrangeiros a utilizar no Girabola?
É uma questão pertinente, pois ao longo dos anos já li e ouvi muita demagogia e populismo sobre o assunto. Todos concordamos que temos de evoluir para o futebol/indústria. E indústria rentável. Não vamos viver eternamente de patrocínios ou de contratos de publicidade sem retorno para os investidores, ou até alguns clubes, de subvenções de dinheiro público. Isso não é sustentável há muito tempo. Temos de fazer pela vida.
E há que começar a melhorar o nível e a qualidade dos jogos, para que eles sejam efectivamente um espectáculo que as pessoas tenham apetência para consumir. A formação de jovens futebolistas no país, está ainda incipiente e teremos um longo caminho a percorrer. De forma que a integração de atletas estrangeiros nas nossas equipas seja uma forma de acelerar a melhoria da qualidade do futebol, desde que, claro os atletas contratados tenham essa qualidade requerida. Sobre a qualidade da competição, logo a competitividade das equipas nas Afrotaças, a visibilidade do país aumenta, a visibilidade dos jogos também, o que beneficia todas as partes, e a rentabilidade do espectáculo.
E esta questão não é imutável no tempo. Há períodos em que precisamos mais de atletas estrangeiros, e outros em que precisamos menos, quando por exemplo a formação produz mais valores. Coisa que não tem acontecido na escala que necessitamos. Assim, a regulamentação sobre o número de estrangeiros pode sempre alterar-se em função das necessidades. É o que fazem países com o futebol mais evoluído que o nosso.

JD – E a Selecção Nacional não ficaria penalizada com esta medida?
Essa questão é uma falácia. Nós temos de produzir atletas que sejam integráveis na alta competição de outros países onde o futebol é mais evoluído, e são esses atletas que integrarão o nossa selecção nacional. Por exemplo, em cada CAN onde estou desde há três anos integrado no comité permanente de organização, as 16 selecções que lá se apresentam, cada uma com 23 atletas, apenas menos de 4% jogam no seu próprio país. E temos aqui os países árabes a enviesar a estatística, pois sem eles seria ainda menos. Por isso, aos que apregoam uma selecção nacional com jogadores que actuam no Girabola, não esperem que a selecção seja competitiva. Se não conseguimos estar consistentemente nas primeiras 16 selecções que estão presentes em cada CAN, é porque o paradigma está errado.
Na formação de atletas, em qualquer parte do mundo, atende-se: à qualidade da formação e dos clubes; à qualidade intrínseca do atleta; e depois ao nível competitivo em que participa. E é neste último ponto, mesmo que os dois primeiros aspectos estejam implementados, que não temos possibilidade de garantir para já e durante vários anos.