Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Tenho recordes nacionais que ainda no foram batidos"

Joo Francisco On-line - 13 de Fevereiro, 2013

Guilhermina Paula da Cruz, 43 anos, ou simplesmente o motor do Interclube, como era tratada no atletismo quando, sozinha

Fotografia: Jornal dos Desportos

A atleta Guilhermina Paula da Cruz, 43 anos, ou simplesmente “o motor do Interclube”, como era tratada no atletismo quando, sozinha, conseguia arrecadar pontos em quase todas as disciplinas de pista, que eram suficientes para a equipa afecta à Policia Nacional se sagrar campeã. Tem um recorde nos 400 planos (55´34) que, mesmo obtido em juvenis, passou para os juniores e seniores e até agora, quando já se passaram 27 anos, ainda não foi batido.

Guilhermina Cruz foi uma das atletas galardoada com o troféu “mulher e o desporto”, em 2012, galardão atribuído anualmente pelo Comité Olímpico Angolano (COA) para homenagear as individualidades que mais se destacaram ao longo da sua carreira desportiva. “Senti-me honrada, acima de tudo, porque o prémio foi atribuído pelo COA e teve como júri pessoas como o professor Rui Mingas, a deputada Joana Lina e a secretária de Estado da Promoção da Mulher, Paula Sacramento, personalidades que valorizaram o gesto”, reconheceu. A “gazela” de Angola começou a praticar atletismo, modalidade considerada garante da universalidade dos Jogos Olímpicos, tanto da era Antiga como Moderna, em 1985 por mero acaso.

“Fui acompanhar uma amiga à zona verde, que naquela altura era o sítio onde treinava a maior parte dos atletas, tanto das provas de velocidade como de resistência, e o professor Inocêncio quando me viu recebeu a bola que segurava da mesma companheira com quem estava, enquanto ela treinava, pedindo-me também para fazer o mesmo”, contou. No princípio, Guilhermina Cruz confessa que não gostou da forma como foi apanhada de surpresa e, também pelo facto do professor Inocêncio, cujo apelido não recorda, a ter posto a fazer uma longa distância que só não desistiu por ter deixado a bola da sua amiga com o seu primeiro “tutor” no atletismo. “Lembro-me como se fosse hoje, foi no dia 16 de Outubro de 1985, porque sei que nessa mesma data se assinala uma efeméride internacional. Só não fugi, por causa da bola da minha amiga, que para satisfazer a vontade do professor Inocêncio tive de lhe entregar.”

INCENTIVO
“Vitória na Sorri Novembro motivou-me”

Guilhermina Cruz atribui o incentivo da sua continuação no atletismo à primeira prova que venceu. “A partir daí, comecei a treinar com os outro(a)s, às segundas,  quartas e sextas-feiras  e, em apenas menos de um mês de treino venci a minha primeira prova denominada ‘Sorri Novembro’, na qual fiquei à frente de muitos atletas federados e mais experientes que eu. “Lembro-me que, na altura, recebi como prémio um fogão grande que me motivou a continuar a praticar atletismo.” Guilhermina Cruz apercebeu-se depois que tinha mais aptidões para as provas de velocidade, passando então a fazer todas as distâncias naquela especialidade desde os 100 aos 400 metros, tanto em plano como em barreiras, onde ganhava tudo e estabelecia marcas na categoria de juvenis, que não eram superadas sequer pelos seniores. De 2006 até à presente data, promove, anualmente, a corrida para atletas do sexo feminino denominada “Março Mulher” que assinala o Dia da Mulher Angolana.

PALMARES
Muitos títulos e melhorias

Até 1996 ainda corria os 400 metros na casa dos 55 segundos. O que faz com que o seu máximo (55´34) estabelecido nos anos 90 se mantenha até agora. Detém, deste 1985, o recorde nacional juvenil, júnior e sénior dos 400 metros planos (58´60), marca obtida numa competição disputada na Bulgária, que foi melhorando nos anos subsequentes (55´20) no Campeonato Mundial de Juniores. A atleta participou nos Jogos da África central de Brazaville (Congo), Nairobi (Quénia) e em 1987 no Campeonato do Mundo em Itália. De 1988 a 1991 ajudou a equipa a vencer os Campeonatos Nacionais de 100, 200 e 400 metros planos e venceu, a título individual, a mesma prova. Em 1991 e 1992, a nossa “gazela” esteve em “estágio”no Sporting de Portugal e obteve o 4º lugar no Campeonato de Portugal e o terceiro posto nos 400 planos seniores por equipas da mesma competição.Participou igualmente nos Jogos Panafricanos da África do Sul em 1993 e no Campeonato do Mundo da Alemanha, onde melhorou a sua marca pessoal nos 400 planos.

Em 1994 passou a representar o Petro Atlético de Luanda, sagrando-se concomitantemente campeã dos 200 e 400 metros individuais e por equipas, barreiras, salto em cumprimento, estafetas  4X100 e 4x400 metros individuais e por equipas. Também deu o seu contributo à selecção nacional nos Jogos Universitários do Japão e nos Jogos Panafricanos de Harare (Zimbabwe). Em 1996 continuou a dominar os 200, 400 metros barreiras, saltos em cumprimento e estafetas 4X100 e 4x400 metros individuais e por equipas. Encerrou a carreira desportiva da melhor maneira, em 1997, sagrando-se campeã nacional nas especialidades e distâncias em que se notabilizou e tendo ainda participado a título individual na corrida de fim de ano São Silvestre de 2000

PING PONG
“Política Desportiva como factor de integração e expansão”

Jornal dos Desportos: Além de estar agora no associativismo desportivo o que mais faz?
Guilhermina Cruz: A minha vida, desde os 14 anos, foi sempre o desporto. Neste momento, além de trabalhar na Direcção Provincial da Juventude e Desporto de Luanda, onde chefio um departamento, trabalho nos escalões de formação do atletismo, com um grupo de crianças dos 8 aos 17 anos, no Bairro Palanca, em Luanda.

JD: Teve alguma formação desportiva específica?
GC: Sou professora de Educação Física formada no Instituto Nacional de Educação Física (INEF) entre 1993 e 1998. Como na altura não havia curso superior, fiz o Curso Superior de Ciências Políticas na Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho, que terminei e estou agora a preparar a defesa da licenciatura do fim do curso cujo tema é “Um olhar à política desportiva como factor de integração e expansão da Nação”, no qual vou ter como tutor o professor doutor Mendes dos Santos e como co-tutor o professor licenciado Gabriel Magalhães.

JD: Quer fazer um resumo da sua tese?
GC: Tem três capítulos, o primeiro trata das teorias e conceitos fundamentais da matéria em questão, o segundo aborda a responsabilidade do Estado neste mesmo assunto (política desportiva) e o terceiro faz uma abordagem do desporto, turismo e o se impacto nacional e internacional.

JD: Quer deixar um conselho aos dirigentes desportivos à luz da legalização das Associações Desportivas ?
GC:
É muito importante as instituições desportivas estarem legalizadas, porque quando se está bem com a lei o Estado reconhece e pode encaminhar apoios. Tem-se verificado que associações, clubes, escolas ou núcleos muitas vezes são penalizados nos apoios que o Executivo pode destinar.

por dentro
Nome Completo:
Guilhermina Paula da Cruz
Filiação: Miguel Cruz e Domingas Paulino
Local e data de Nascimento: Cazenga (Luanda), a 20 de Janeiro de 1970
Estado civil: Solteira
Filhos: Uma
Altura: 1,78 m
Peso: 54 kg
Calçado: 40
Prato: Lombi, folhas de abóbora ou outro tubérculo com beringela, quiabos que se coze e refoga depois, à parte, e é acompanhado com carne ou peixe
Bebida: Tudo sem álcool
O que mais teme na vida: Algo de que estou certa e ser contrariadaReligião: Igreja Universal do Reino de Deus
Casa Própria: Tenho
Carro: Não