Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Tenho sofrido muita presso

31 de Março, 2013

Quando me foi dada a oportunidade trabalhei muito para aproveitar

Fotografia: AFP

Os penteados exóticos, o número 11 às costas e um repertório inesgotável de fintas com a bola nos pés fizeram de Neymar uma figura conhecida em todo o mundo do futebol. Mas o brasileiro, eleito pelo segundo ano consecutivo o melhor jogador da América do Sul, não se deixa levar. Muito pelo contrário, apesar de cobiçado por gigantes do futebol europeu, o atacante do Santos e da Selecção Brasileira assume o papel de astro com naturalidade e mantém os pés no país de origem, onde já conquistou vários títulos, entre eles a Copa Libertadores 2011. Enquanto se prepara para obter mais êxitos ao longo de 2013, Neymar falou de tudo com o FIFA.com durante a cerimónia de gala da Bola de Ouro FIFA, no início de Janeiro: um balanço de 2012, as mudanças na selecção, a recente paternidade e o contrato que o une ao Peixe até 2014.

Você participou pela segunda vez seguida da cerimónia de gala da Bola de Ouro FIFA em Zurique. Qual foi sensação?

Sinto um orgulho muito grande, uma felicidade enorme. Estar presente numa festa tão grande onde estão os melhores do mundo, ao lado de ídolos meus, obviamente me faz muito feliz.

Você é o único representante de um clube sul-americano. Isso torna tudo ainda mais especial?
É uma sensação especial, sim. Sinto que o meu trabalho está sendo bem feito e que estou no caminho certo. Estou muito contente por estar a cumprir as metas que defini. Agora espero continuar assim e poder estar presente nas próximas também.

Você foi indicado pela segunda vez consecutiva para o Prémio Puskás de melhor golo do ano. Fazer golos bonitos é outra das metas a que se propõe a cada ano?

Não, não… São coisas que acontecem, mas não penso em fazer golos bonitos quando estou dentro do campo. Graças a Deus marquei golos muito bonitos e, acima de tudo, eles me fizeram vir a esta festa!

Gosta tanto de fazer golos quanto de dar assistências?

Gosto das duas coisas! Quando não dá para fazer um golo, uma assistência também me deixa muito feliz. E mais: cada vez que dou um passe e um companheiro faz o golo, é como se eu mesmo tivesse feito o golo.

O que é mais difícil para o Neymar hoje: brilhar no futebol ou criar um filho? 
Depende do momento! O meu filho tem quase um ano e meio e já está dar muito trabalho também. Eu diria agora que criar um filho é um pouco mais difícil...

Como se definiria como pai sendo tão jovem?

Sou um pai muito feliz e agradecido a Deus por ter me dado este presente maravilhoso. Mimo muito o meu filho, é claro. Sempre que posso estou com ele, seja na concentração, em casa ou na casa da mãe dele. Quero estar presente com ele sempre que possível.

Vamos falar de futebol. Qual foi o seu momento inesquecível de 2012?
Diria que contra o Cruzeiro, num jogo do Campeonato Brasileiro, quando fui aplaudido por toda a claque adversária (em Belo Horizonte, Neymar fez três golos na goleada por 4-0). Naquele momento senti uma grande emoção. A verdade é que fiquei muito honrado com o que aconteceu, me marcou muito.

Você também disputou os Jogos Olímpicos de Londres. Que análise faz depois de ter perdido a final contra o México?
É complicado. Foi um momento feliz, mas triste ao mesmo tempo. Diria que foi uma aprendizagem muito grande. Muitos atletas olímpicos vão em busca de medalhas, seja de bronze, prata ou de ouro. E nós conquistamos uma de prata: não é o que esperávamos, mas também é maravilhoso para um desportista. Infelizmente perdemos a final, mas também estou contente por ter sido medalhista.

Pelo menos poderão enfrentar o México na próxima Copa das Confederações da FIFA. Será uma oportunidade de desforra para os que estiveram em Londres?
Um pouquinho (risos). Após ter perdido a final, estamos com muita vontade. Mas a verdade é que não temos nada contra eles. O futebol é assim, toda final tem um vencedor, e aquela foi a vez deles. Acho que mereceram o triunfo naquele jogo.

O ano de 2012 trouxe mudanças importantes para a selecção brasileira. Qual foi o legado de Mano Menezes?
Foi o Mano quem me levou à Selecção Brasileira, quem me convocou pela primeira vez. Aprendi muitas coisas com ele, é claro. Cada treinador tem métodos diferentes, e com todos se aprende um pouco. Com o Mano não foi diferente, aprendi muito também.

Que expectativas tem com a chegada de Luiz Felipe Scolari?
As expectativas são grandes. É um grande treinador, contra quem já pude jogar, e também uma grande pessoa. Tomara que nos nossos jogos possamos demonstrar isso e sair de todos com vitórias.

Estamos a falar do último treinador que ganhou a Copa do Mundo da FIFA com o Brasil. Quais são as suas recordações daquele torneio em 2002?
Lembro muito bem! Tinha 10 anos e me levantava muito cedo, porque os jogos eram nessa hora no Brasil. Sempre torcendo, gritando de madrugada. Tenho lembranças de todos os jogos e de todos os golos, principalmente os da final.

Qual será a importância da Copa das Confederações da FIFA tendo em conta a falta de torneios oficiais para a selecção brasileira nos últimos anos?
É um torneio muito importante, em que vamos enfrentar selecções de grande qualidade. Vai ajudar a nossa preparação para a Copa do Mundo. Temos de aproveitar para montar a equipa com um treinador novo e nos acostumar a um trabalho totalmente diferente. A ideia é fazer isso o mais rápido possível, para o bem da Selecção.

Estão prontos para conviver com a pressão de jogar dois torneios tão importantes diante de uma torcida tão exigente como a brasileira?

A pressão é muito grande. Não importa onde vamos jogar, sempre há pressão, mas vai ser maior em casa. Temos consciência disso, mas gostamos. É uma pressão boa. Tive a sorte de jogar finais de diferentes campeonatos, e sentir essa pressão de ganhar é maravilhoso. Estamos preparados para tudo isso, pois o jogador brasileiro aceita com naturalidade. Estamos a nos preparar para esse momento.

Em que situação está a selecção brasileira hoje? Ronaldo manifestou recentemente que não a coloca entre as cinco melhores do momento. Você concorda?
Quando a gente olha o ranking, actualmente o Brasil não está entre as cinco melhores. Mas estamos a trabalhar forte para afirmar a identidade da equipa, deixar tudo mais redondo. Faz tempo que esta selecção não joga junto. Mudou muito e precisa trabalhar muito para reforçar essa identidade e atingir o auge novamente.

Que objectivos você tem para 2013?
Primeiramente ajudar o Santos, a conquistar títulos ou da forma que for: com golos, com passes, fazendo o que for necessário. Isso é o que importa. Com a Selecção, a mesma coisa: ganhar troféus e levá-la ao lugar mais alto novamente.

Continuará no Santos até depois da Copa do Mundo da FIFA?
Nem eu sei. Tenho contrato até 2014, mas ainda falta muito para o Mundial. Não sei se vou renovar ou não. É um assunto pessoal que vou pensar com a minha família e com o Santos. É algo que certamente conversaremos mais adiante. Daniel Alves nos contou que insiste constantemente para que você vá para o Barcelona…O Dani sempre me envergonha (risos)! Ele me põe em uma situação incómoda…

Acha que o facto de permanecer no Brasil tanto tempo pode atrasar o seu crescimento como jogador?
Não. Seja fora ou dentro do Brasil, um jogador pode evoluir e melhorar. No âmbito pessoal, a cada ano que passa sinto que cresço tanto no meu futebol como na experiência acumulada. Há quem diga que é necessário sair para crescer, mas eu não estou de acordo.

Você tem apenas 20 anos, mas já ganhou vários títulos e tem o nome reconhecido em todo o mundo. Como lida com tudo isso no dia a dia?
Tenho consciência de que ainda me ocorrerão muitas coisas na vida e que até hoje tudo aconteceu rápido demais. Mas me sinto preparado para tudo: quando me foram apresentadas as oportunidades, trabalhei muito para aproveitar,  e por isso é que estou muito feliz. Agora quero conseguir mais coisas e títulos, tanto com o Santos quanto com a selecção. O meu objectivo é continuar a crescer não só como jogador, mas também como pessoa.