Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Teresa Quarta diz que género vai mal no Desporto

Leonel Libório - 23 de Janeiro, 2011

AMUD vai publicar a história do desporto feminino pós-independência

Fotografia: Santos Pedro

Como se encontra o género, no contexto desportivo nacional?
Está mal. Alguma coisa tem sido feita, porque temos estado a ganhar medalhas, troféus. Inclusive, temos alcançado patamares internacionais, como é o meu caso. Internamente, assumi vários cargos de nível internacional.

Quais?
Sou a vice-presidente dos Comités Olímpicos em África. Comecei como membro da Comissão Jurídica e depois passei a membro cooptado, o que quer dizer de nomeação, para a sua Comissão Executiva. São ganhos do nosso país, pelo que continuamos na mesma senda.

Que solução se apresenta para os ex-atletas e também para os que estão no activo, que receberam e recebem salários e não descontaram para a Segurança Social, pelo facto de o desporto ainda não se enquadrar no leque das actividades profissionais?
É uma violação flagrante à Lei. Não sei o que se passa. É lamentável constatar-se que ainda se está a viver essa situação. Não sei por que é que os clubes não cumprem a Lei no que diz respeito à segurança social. Não me compete avaliar essas situações, fundamentalmente, em termos de implementação. O juízo de valor que se me oferece fazer é no sentido de se inserir o desporto na segurança social, para assegurar a actividade de alto risco dos atletas (masculinos e femininos); devem ser protegidos desse mesmo alto risco que atravessam no desenvolvimento da sua actividade profissional.

“A licença de parto
é um direito da atleta”

Temos conhecimento da existência de atletas do sexo feminino, não apenas no desporto de alta competição que, em situação de gestação, principalmente no período pós-parto, enfrentam problemas com as direcções dos clubes, que lhes descontam financeiramente o período que a Lei Geral do Trabalho lhes concede. O que a Associação está a fazer no sentido de ajudar a inverter o quadro?
Também temos essas informações. As atletas comentam. Temos assinalado esse tipo de situações. Aconselhamos as atletas a recorrerem aos órgãos de justiça por se tratar de uma situação que não é normal. É uma ilegalidade que os clubes praticam. A Lei Geral do Trabalho protege-as. Temos de mudar a mentalidade das pessoas que defendem que o desporto não se revê na Lei Geral do Trabalho. Sendo o desporto uma actividade específica, precisa de uma Regulamentação igualmente específica. Enquanto não for aprovada essa Regulamentação específica, a Lei Geral do Trabalho deve ser aplicada como um dos princípios fundamentais do Direito. Essas atletas devem reclamar junto dos órgãos de Justiça e fazer valer os seus direitos. Estamos para ajudar no seu acompanhamento e aconselhamento. No ano passado, foram identificadas algumas situações. Estamos a envidar esforços para que no ano corrente as coisas melhorem.

Ainda se regista um número reduzido de mulheres treinadoras e atletas, quer nas modalidades colectivas como individuais. A que se deve e o que está a ser feito para se mudar o quadro?
Também constatámos isso. Este ano, a Associação Angolana da Mulher no Desporto pretende desenvolver acções de formação em parceria com as federações e associações provinciais de cada modalidade, de forma a se obedecer aos requisitos técnicos exigidos pelas federações internacionais. Daí estarmos também a trabalhar com alguns professores com provas dadas a nível nacional. Esboçámos um programa de actividades nesse sentido para podermos iniciar ainda este ano a formação de treinadores nas diversas modalidades. Temos o apoio de algumas instituições, que acudiram ao projecto em causa.

História e estudo estatístico
do desporto feminino na forja


Grandes desafios são esperados da direcção da Associação Angolana da Mulher no Desporto. A presidente da instituição garante que estão a ser criadas as condições para se saber o número exacto de praticantes femininas e o percurso da inserção da mulher no desporto no período pós-independência.

Pode-se saber quantos membros a AMUD controla e quantas atletas existem em Angola?
Esse é um trabalho que pretendemos fazer. A nível do país, não temos essa informação. Enquanto Comissão da Mulher e o Desporto do Comité Olímpico Angolano (COA), da qual fui a coordenadora, efectuámos um trabalho de recolha de dados estatísticos apenas na província de Luanda, em 2006. É evidente que esses dados já foram ultrapassados. Esse é um dos projectos que temos em carteira, para este ano fazermos o levantamento dos dados estatísticos em todo o país.

Que subsídios se podem esperar para o desenvolvimento do desporto feminino, em particular, e para o desporto, em geral, saídos da 1ª Conferência Nacional sobre a Mulher e o Desporto, que no ano passado decorreu em Benguela?
A Conferência Nacional sobre a Mulher e o Desporto foi um grande desafio. Conseguimos agrupar representantes das 18 províncias, assim como os directores provinciais do Desporto e da Família e Promoção da Mulher. O nosso propósito consistiu em discutirmos e analisarmos os problemas com que a mulher se debate no desporto. Analisámos as causas que estão na origem da fraca participação da mulher no desporto, como atleta, técnica e dirigente. Produzimos uma Declaração Nacional, onde se identificam as falhas, insuficiências, as possíveis soluções e as instituições a envolver na solução desses problemas.

A realização do evento foi um ganho para o desporto nacional?
Pode-se considerar como ganho maior o facto de que a mulher cresceu e os propósitos da AMUD saíram mais fortalecidos. Aquando da nossa proclamação, para além de Luanda, conseguimos apenas fazer-nos representar em três províncias, Benguela, Kuando-Kubango e Malange.

Qual é a realidade hoje?
Actualmente, estamos representadas em 11 províncias, o que constitui um grande passo, para além de pretendermos estender a nossa acção a toda a extensão territorial do nosso país. Pretendemos fazer um trabalho ao nível nacional para sabermos qual é a realidade que se vive nas províncias, onde aspiramos começar com o trabalho de base. É nossa intenção elaborar um trabalho para contarmos a história do desporto feminino, desde que o país se tornou independente até aos dias que correm. Fruto da 1ª Conferência Nacional sobre a Mulher e o Desporto, assumimos esse compromisso. Vamos trabalhar para termos uma ideia de como éramos, como estamos e perspectivar o futuro.

Uma vez que a Associação que dirige é relativamente nova, pode passar alguns feitos realizados até ao momento e que mexeram com a sociedade desportiva e não só?
Entre outras acções, no ano passado, iniciámos com a realização de marchas de solidariedade e apoio ao Campeonato Africano das Nações de futebol que, em Janeiro, decorreu no nosso país. Conseguimos fazer com que as mesmas tivessem decorrido em sete províncias e não apenas naquelas que albergaram as sedes preliminares. Cumprimos tal tarefa com sentimento de satisfação, pois acabava de ser proclamada a Associação dos Direitos da Mulher, onde um dos principais propósitos é o de desenvolver acções de solidariedade. Realizámos torneios em várias modalidades em apoio às jornadas do Março-Mulher. Movimentámos muitas crianças com idades compreendidas entre os nove e os 13 anos, nas modalidades de andebol e de basquetebol. Como no futebol, pelo menos de forma conveniente, não existe movimentação de crianças dessa faixa etária, os clubes da capital acharam por bem realizar um torneio denominado Taça Mulher e o Desporto, na classe de femininos do escalão de seniores, enquanto no atletismo fizemos disputar uma prova de rua.                                                                

>> Karaté
Academia de karaté shotokan
aposta nas camadas jovens

A academia de karaté shotokan, do Sporting Clube do Lubango, na província da Huíla, vai apostar na presente época desportiva no programa de massificação, em ambos os sexos, cuja abertura acontece no próximo mês de Fevereiro. O mestre principal da academia, Severino Fernandes, salientou que o Sporting é uma das agremiações, a nível da província, que movimentam muita juventude, em virtude de dar prioridade aos seus projectos de acção, a formação e descoberta de talentos para as artes marciais.

Severino Fernandes esclareceu que na época passada aderiram ao clube cerca de 85 crianças, das quais sete do sector feminino e oito do escalão de seniores. Daí que, para este ano, vão preferir, antes da abertura da época desportiva, reorganizar internamente o clube para facilitar o seu melhoramento e dar primazia aos escalões de formação.“Vamos abrir a nossa época desportiva em Fevereiro para melhor organização interna do clube e podermos participar nos campeonatos nacionais, locais e torneios”, informou.

O mestre da Academia avançou que as dificuldades financeiras com que o clube se debate há já um tempo inviabilizam a concretização dos objectivos preconizados. Porém, Severino Fernandes sustentou que, embora a massificação constitua uma das apostas do Sporting, vão igualmente realizar campanhas de sensibilização para atrair mais praticantes da categoria sénior em ambos sexos. “Este ano, vamos continuar a dar as nossas atenções à massificação dos escalões de formação. Por isso, esperamos que seja melhor em relação à época passada. Temos muitos praticantes que estão a aderir, principalmente nos escalões jovens”, disse.

Acrescentou que, pelo facto de o clube ter poucos recursos financeiros, foi obrigado a reduzir o número de karatecas da classe sénior, os quais foram enviados para outras academias, uma vez que essa faixa etária requer apoios e alguns patrocínios para poder subsistir.
Gaudêncio Hamelay, no Lubango