Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Trabalho de Herv Renard foi sabotado na federao"

Paulo Caculo - 09 de Fevereiro, 2019

Tefilo Moniz afirma estar desapontado com o actual cenrio que apresenta o futebol angolano

Fotografia: M.Machangongo | Edies Novembro

O ex-futebolista Teófilo Moniz, que se notabilizou com a camisola do Sporting de Luanda, confessou em entrevista concedida ao Jornal dos Desportos, estar agastado com o actual estado do futebol e aponta os dirigentes como \"elo mais fraco\".
Hoje, nas vestes de comentador, reprovou o cinismo e a falsidade com que lidam com os problemas do desporto-rei. Não poupou igualmente criticas a alguns  treinadores comprometidos com a formação do futuro da modalidade, considerando-os de \"curiosos\", por pensarem que percebem de futebol e conseguem transmitir conhecimento, quando, às vezes, nem dominam o processo de treinamento para os escalões de formação.
\"Vejo o futebol hoje com muita tristeza e lamento o actual estado da modalidade. O futebol em Angola baixou de nível e está cada vez pior. Curiosamente, mesmo com aumento do nível de conhecimento de muitos treinadores\", avaliou, inconformado pela forma como está a ser gerido nos dias de hoje.
\"Temos hoje indivíduos licenciados e mestres em métodos de treinamento, mas do ponto de vista da organização de jogo técnico e táctico não vemos nada. O futebol decaiu muito de qualidade”, afirmou.
Teófilo Moniz diz que \"como prova disso, é só ver o número de adeptos que vão aos estádios e mesmo aqueles que ficam em casa diante do televisor, para assistir uma partida de futebol do nosso Girabola\", acrescentou.
O antigo atleta admite, que as soluções encontram-se depositadas nas mãos de quem dirige, coordena e projecta a modalidade. Mas, deplora, no entanto, o facto de ouvir falar-se muito de projectos, sem que se tire algum proveito deles. \"Estes projectos, quer sejam bem ou mal concebidos, existem e mesmo aqueles de pouca qualidade, podem-se tirar alguns valores\", aconselhou.
\"O que vem acontecendo hoje é que o volume de massa financeira que grassa no nosso futebol, proporciona algum relaxe e comodismo a alguma classe de  jogadores, porque julgam que por aquilo que ganham é suficiente para manterem-se com vitalidade\", disse.
Realçou que não percebe como a modalidade tem vindo a piorar de qualidade, mesmo com treinadores proveniente de outros países. Admite, porém, que um ou outro clube consegue trazer alguma qualidade ao futebol nacional, fruto dos investimentos que fizeram e vão fazendo com técnicos e atletas. Mas outros simplesmente vivem em constantes oscilações de época em época\", sublinhou.
\"Desde 1977, altura em que houve o primeiro \'clinic\' de refrescamento para treinadores para futebol infantil, dirigido por um português chamado Pina de Morais, vários ciclos de formação foram acontecendo, mas nunca desfasados no tempo. Aconteceu no  período de 77 a 83, quando instrutores brasileiros estiveram em Angola”, recordou.
Disse mais adiante que “depois voltou a haver um novo ciclo de formação nos mesmos moldes dirigido por Djalma Cavalcante em 1994. Felizmente, tem havido alguma formação para técnicos e hoje temos instrutores autorizados pela FIFA, com diplomas para dar formação, mas o pior é que a qualidade do formador é medíocre”, constatou.
Teófilo Moniz diz haver muita gente, que pensa que o facto de um indivíduo ter sido bom jogador, será também bom técnico de futebol. Pensar desta forma, segundo Teófilo Moniz, é errado, porque muitas vezes este profissional tem experiência para outras funções de treinador, mas arrasta consigo debilidades enquanto formador.
“Muitas vezes, como há um compromisso formalizado pelo contrato, em que o atleta no final da carreira pede um emprego ao clube ou porque a direcção quer acomodar a pessoa, coloca-o como treinador dos jovens, mesmo sem experiência para tal”, observou.
“Já acompanhei alguns torneios nas categorias de base, em que a qualidade da pessoa que dirige estes grupos de meninos deixa muito a desejar. São pessoas com muito boa vontade, mas não são dotadas de conhecimento, ou seja, são curiosos”, precisou.


EX-SELECCIONADOR
\"Hervé Renard
foi alvo
de sabotagem”


O afastamento prematuro do técnico francês, Hervé Renard, do comando da Selecção Nacional resultou, segundo Teófilo Moniz, de uma sabotagem do seu trabalho pela Federação Angolana de Futebol (FAF).
Sem especificar o mentor de toda a \"artimanha\", que terá influenciado na saída do treinador campeão africano com a Zâmbia e Costa de Marfim, o ex-futebolista garantiu que o sucedido foi a pior brincadeira, que assistiu na história do futebol angolano.
\"Perdemos um grande treinador. Um profissional que veio com muita vontade de ajudar o futebol angolano, mas por capricho de algumas pessoas o seu trabalho foi sabotado. A pior brincadeira que houve com o futebol de Angola, foi o que se fez com Hervé Renard\", lamentou .
\"A verdade não se veio a conhecer, mas o que se passou é que houve sabotagem ao trabalho do treinador dentro da FAF. Não se pode pagar um bilhete de passagem a um treinador para vir trabalhar  e nos dias posteriores aparecer um dirigente a dizer que o projecto estava abortado, porque não havia dinheiro para dar sequência\", deplorou Teófilo Moniz, para em seguida sustentar:
\"Foi uma decepção total para o treinador e vergonha para o país. Infelizmente, não relevamos a verdadeira história, porque não temos vergonha na cara e depois gostámos muito de remendar as coisas. Hoje, tenho pena da bola, porque está a ser muito maltratada. A bola é a única coisa honesta no futebol, porque o resto é mesmo resto”.


CONSTATAÇÃO
“Desprezamos as conquistas  alcançadas”

Teófilo Moniz diz não perceber o porquê, que após a conquista do CAN júnior em 2001, na Etiópia, e a qualificação inédita ao Campeonato do Mundo de 2006, na Alemanha, o futebol angolano não registar, nos anos seguintes, uma verdadeira explosão em termos de qualidade.
Confessa que depois destes marcos importantes para o desporto nacional, conquistados sob o comando do técnico angolano Oliveira Gonçalves, sempre acreditou que o país estaria em condições de permanecer vários anos na \"boca do mundo” e com constante projecção internacional.
“Não fomos ao Mundial de 2006 por mero acaso. O futebol é o momento e quando não estamos na plenitude das nossas faculdades físicas e mentais, por muito talento que tenhamos, se não se reunir estas condições não temos êxitos. Quando Angola começou a campanha para o mundial, ninguém acreditava na qualificação\", recordou.
O nosso interlocutor destacou, ainda, o papel exercido pelo ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ao permitir que se fosse criada todas as condições para a selecção trabalhar, que considera terem sido fundamentais, para o êxito alcançado.
“Não aproveitamos o entusiasmo deste cidadão (José Eduardo dos Santos), para consolidar algumas conquistas que já vínhamos obtendo. Mas, o que é que isso serviu-nos de referência? Zero! Não valeram para nada, porque não conseguimos pegar nestas duas conquistas e projectar o nosso futebol”,lamentouTeófilo Moniz  pelo  estado triste em que se encontra   o futebol nacional  com campanhas  cinzentas .


PROJECTO DE ARTUR  ALMEIDA
Teófilo apela apoio a  FAF

Confiante no sucesso  do programa de Artur de Almeida ,Teófilo Moniz considera que a FAF tem um projecto bastante pertinente, mas garante que muito dificilmente terá pernas para andar, se continuar a faltar apoio financeiro.
“Não compreendo o que se passa em Angola. O Artur de Almeida veio com um projecto bastante pertinente, mas os angolanos, lamentavelmente, vão continuar a duvidar daquilo que não têm conhecimento\", disse.
Recordou ter sido convidado em 2011, na primeira tentativa do actual presidente da federação, para integrar o projecto e confessa que a derrota da candidatura naquela altura deveu-se, precisamente, ao facto das pessoas  não acreditarem.
“Hoje o senhor Artur venceu as eleições, mas não tem recebido o devido apoio do Estado, ou talvez as coisas tenham-se alterado nos últimos tempos\", afirmou. Deplora o facto de ter ouvido de Albino da Conceição, então ministro da Juventude e Desportos, declarações publicas de que as pessoas quando se candidatam para as eleições, devem de ter cuidado com aquilo que dizem.