Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Transmitimos o nosso apreço como militares das ex-FAPLA

Simão Kibondo - 20 de Novembro, 2010

Capitão certeza quer tornar-se num ciclista federado

Fotografia: Arquivo da FACI

A marcha entre as cidades do Uíge e de Luanda cumpriu com a sua função?
Sim. Foi cumprida. Partimos do Uíge no dia 1 de Novembro e chegámos a Luanda no dia 10 e conseguimos ler a mensagem e entregar o quadro de homenagem à Sua Excelência Presidente da República, o Engenheiro José Eduardo dos Santos, na qualidade de artífice da Paz e pelos 35 anos de independência nacional.

Disse alguma coisa especial ao Vice-Presidente da República, quando vos recebeu na Praça da Independência?
Transmitimos o nosso calor, o nosso apreço como militares das ex-FAPLA. Sentimo-nos orgulhosos, porque as razões que nos levaram a trocar as carteiras por trincheiras como a unidade da Nação, a soberania do país, a Paz, graças ao esforço das ex-FAPLA, continuam intactas.

O que falhou na marcha Uíge – Luanda?
Num evento com aquela magnitude nunca faltam falhas. Por exemplo, no último dia, já em Luanda, encontrámos um engarrafamento que atrasou relativamente a nossa chegada à Praça da Independência, onde ilustres individualidades nos aguardavam na tribuna. A nossa Polícia Nacional podia organizar melhor a nossa entrada em Luanda em termos de trânsito. Vimos a Polícia Nacional muito bem organizada desde a cidade do Uíge, palco da partida, ao longo de todo o percurso como na província do Bengo, até à Administração de Viana. Tivemos um aparato policial que fez um trabalho excelente. Mas, em Luanda, para sairmos do sítio onde estávamos, na Administração de Viana, tivemos muitas dificuldades. Foi naturalmente uma falha.

Ao longo do percurso sofreu duas quedas. Porquê?
Mesmo os melhores ciclistas sofrem quedas. É natural. Existem diferenças entre uma bicicleta normal e outra de competição. Por exemplo, as sapatilhas que usámos nas bicicletas de competição encaixam nos pedais e o mínimo atraso ao tirar a sapatilha do encaixe,  quando paramos, pode levar-nos a uma queda. Foi o que aconteceu comigo. Apesar das quedas, continuámos a marcha sem que os incidentes tivessem afectado moral ou fisicamente os nossos objectivos.

Depois da marcha, o que será do Capitão Certeza?
Já fui aconselhado pelo Técnico David Ricardo, nas vestes do meu treinador, a continuar a preparação e os treinos efectuados para a marcha Uíge – Luanda. Vou continuar até me tornar num verdadeiramente ciclista federado. Aliás, já definimos um calendário para esse objectivo; vou passar a treinar três vezes por semana: às segundas, quintas e aos sábados.

Trabalho excelente
da Federação e parceiros

Como avaliou o trabalho da Federação Angolana de Ciclismo ao longo da marcha?
Quero aproveitar a oportunidade para agradecer de coração sincero o trabalho excelente da Federação Angolana de Ciclismo, por fazer deslocar de Luanda ao Uíge o seu Secretário-Geral e o seu Vice-Presidente para a área técnica. Foi muito bom,  porque as duas entidades estiveram no terreno para acompanhar “in loco”o decorrer da marcha.

Quanto à Brigada 28 de Agosto, o que se lhe oferece dizer?
A Brigada 28 de Agosto é uma Associação filantrópica que está a tentar afirmar-se, agora, no contexto nacional. Creio que não está no “mercado” há mais de um ano. Compreendemos as falhas que eventualmente esta Associação teve ao longo da marcha. Há um sábio que disse que “para aprender primeiro, erramos”.

E a Escola David Ricardo?
A Escola David Ricardo exerceu um papel fundamental no nosso desempenho para podermos percorrer os 400 quilómetros que separam as províncias do Uíge e de Luanda. Tivemos treinos por fases. O treinador David Ricardo deslocou-se pessoalmente aos locais, onde deveríamos efectuar todos os percursos; teve o cuidado de nos dar todos os  detalhes da bicicleta, pormenores técnicos necessários para efectuar uma pedalada do género Uíge – Luanda. Esteve sempre do nosso lado.

Quanto tempo esteve a preparar a marcha com a Escola David Ricardo?
Tive aproximadamente 45 dias, ou seja, um mês e quinze dias de treinos de adaptação divididos em frases: A primeira fase constituiu na preparação física. A segunda fase foi de adaptação à bicicleta, isto é subia na bicicleta ligada a um rolo no chão e pedalava no mesmo lugar, não só para manter o equilíbrio como também para me habituar a estar muito tempo sentado na bicicleta a pedalar, o que foi essencial.

Qual foi o tempo necessário em cima da bicicleta de competição?
Começámos com 40 minutos, avançámos para cinquenta e depois 60 minutos. Terminada essa fase, foi necessário a avaliação, a fase prática no terreno, onde passámos para a estrada. O primeiro teste ocorreu no dia 25 de Outubro, num percurso de 67 quilómetros, com partida no Morro da Areia e chegada ao Hotel Vitória Garden.

Tem outros projectos em carteira?
É prematuro anunciarmos os nossos projectos. Agora, vamos reflectir e actualizar aquilo que já fizemos. Mas é verdade que estou a receber felicitações de muitas pessoas importantes depois de ter feito a marcha Uíge – Luanda. Isso me anima  e tenho a certeza de que não vou parar por aqui. Vou continuar a treinar. De momento, vamos preocupar-nos em manter o nosso porte físico.

“Estou aberto a aliança
com o mais velho Pepino”

Se o mais velho Alberto Silva “Pepino”, de 86 anos de idade, o convidar para fazer parte dos seus projectos, aceitaria?

Tudo o que vier para exaltar o nosso país; darmos ênfase a um determinado projecto, naturalmente, nunca diremos não.

Também gostaria de representar o país em eventos internacionais reservado a ciclistas veteranos?
Desde que surjam os convites, estaremos disponíveis, porque é sempre bom representar o país. É  sempre um orgulho para qualquer angolano competir no estrangeiro em nome do nosso país.

O mais velho Pepino está a preparar-se para representar Angola em mais um evento internacional nos Estados Unidos da América, em 2011. Estaria disposto a fazer uma aliança para marcar também presença?
Se nos convidarem, estaremos dispostos a fazer uma aliança ou qualquer coisa parecida. Já disse que  quando se trata da nação, estamos sempre disponíveis, porque é um orgulho representar a pátria além fronteiras.

“Agradeço a população
pelo encorajamento”

Que mensagem deixa ao povo angolano depois da feliz experiência?
Primeiro, quero agradecer a todos aqueles que de forma directa ou indirecta apoiaram para que esse projecto “Com a paz Angola é melhor” fosse uma realidade. Em segundo lugar, agradeço a toda a população que ao longo do percurso nos animou com gritos de força. Quero destacar as sábias palavras do Soba do Úcua, que procurei com o Vice-Presidente da Área Técnica-desportiva da FACI, Alex Futi , quando chegámos àquela localidade. O Soba do Úcua, Politano Soares, é um ancião de 72 anos de idade,  cego, mas depois de nos identificarmos, disse o seguinte: “O país já está nas nossas mãos. Espero que vocês trabalhem bem. Sinto-me feliz por estarem a sair do Uíge para Luanda de bicicleta. Há anos, aqui só tínhamos movimento de tropas. Hoje, quando vocês saem do Uíge até Luanda de bicicleta é sinal de que a Paz é uma realidade no nosso país”.

O que disse às crianças que não se cansavam de pedir autógrafos na Praça da Independência?  
Às crianças que nos haviam rodeado, disse-lhes várias frases como “tu és a melhor flor do meu jardim”; “as crianças são o futuro do nosso país”; “é sempre bom respeitar os pais”.

E a mensagem ao Presidente da República? 
Na mensagem que li na tribuna da Praça da Independência, no dia 10 de Novembro, destacámos a conquista da paz sem interferências externas. O saudoso Presidente António Agostinho Neto disse um dia: “Ninguém pode vir nos ensinar aqui o que temos de fazer”, fim de citação. O nosso Presidente da República, Sua Excelência, o Engenheiro José Eduardo dos Santos foi o fiel cumpridor desta profecia. Tivemos aqui tanta tropa das Nações Unidas; representantes do Secretário-Geral das Nações Unidas para ajudarem os angolanos a encontrarem a paz. Mas não foi possível. Encontrámos a paz sem a interferência externa. Isso é um motivo de orgulho e mencionámo-lo na nossa mensagem endereçada  em homenagem à Sua Excelência o Presidente José Eduardo dos Santos.