Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Um velho dossier que volta a mexer no futebol nacional

Sak Santos - 19 de Abril, 2012

Dirigente do Progresso apologista da viragem do desporto-rei no pas

Fotografia: Jornal dos Desportos

A ideia da institucionalização de uma Liga de Futebol de Clubes Profissionais no nosso país foi apresentada, há mais de dez anos, pelos senhores Rui Lopes Macau, então vice-presidente de direcção do Petro de Luanda,  Bastos de Almeida “Likas” e outros agentes desportivos. A proposta não gerou grande simpatia, mas serviu para início de uma discussão que se prevê longa e acesa, para que o nosso futebol possa ter um futuro risonho. Assim, voltamos hoje ao assunto,  com José Eduardo dos Reis, 1º vice-presidente do Progresso do Sambizanga. Um dirigente carismático, conhecedor profundo das leis e normas que regem o nosso futebol, que encarou com algumas reservas uma matéria que há algum tempo vem sendo discutida em vários círculos da vida desportiva. A conversa começou assim:

Jornal dos Desportos (JD) – Quais são as premissas para a institucionalização de uma Liga de Futebol de Clubes Profissionais no nosso país?
José Eduardo dos Reis (JER) – Temos acompanhado as conversas de bastidores sobre o assunto a par e passo, porque se trata de uma questão fulcral para o futuro do nosso futebol. Seria uma grande decisão dos clubes que pode traduzir-se no primeiro passo com apoio do empresariado. Não podíamos resignar-nos a uma certa passividade. Também entendemos a preocupação de alguns clubes conscientes de que o nosso futebol em particular e o desporto em geral se tornou profissional encapuçado. Trata-se de uma acção inaceitável, o uso da mentira, o que, e como é óbvio, fragiliza a imagem dos Órgãos Sociais da Federação Angolana de Futebol,  deixando à mostra, do ponto de vista jurídico, um atropelo aos Estatutos e ao Regulamento Geral das Provas Oficiais.

JD – Qual era a primeira condição?
JER - A grande questão que se coloca em torno do nosso futebol é sabermos se temos um futebol amador ou profissional. Esta é a condição “sine qua non” para darmos o primeiro passo para a constituição de uma liga de clubes. É preciso que os homens do desporto em geral e do futebol em particular nos respondam. Provavelmente dentro de um curto ou médio prazo, sabemos qual a posição dos clubes, se há algum “braço de ferro”. Se a maioria ou a minoria aderir a uma futura Liga de Clubes Profissionais e os clubes se tornarem Sociedades Desportivas, as empresas e a banca terão o domínio dos clubes.

JD - Que posição têm neste caso os clubes?
JER - Os clubes perdem a capacidade de manobra e de decisão. Portanto, é preciso saber quais são as suas realidades. Por exemplo, a época 2012 já é de má memória para alguns. Há greves, ameaças de greve, salários em atraso, entre outros. Portanto, os nossos clubes não têm dinheiro.  Assim, torna-se cada vez mais complicado preparar uma equipa competitiva. Outro exemplo do conhecimento público é o Sporting de Cabinda, que havia ameaçado com a sua desistência, a qual teve consequências muito negativas. Com a institucionalização da Liga ela teria em princípio de contar com o patrocínio de uma Empresa, em que os clubes seriam retirados da Federação Angolana de Futebol (FAF) para jogarem apenas nesta competição de elite. A FAF estaria somente com as selecções nacionais.

JD Defende a institucionalização de uma Liga no nosso País?
JER - Nestes termos a ideia da constituição da Liga, se bem que seja neste momento provocante, não deixa de ser estimulante e não deve ser rejeitada. É uma ideia que nas suas linhas gerais deve estar presente, sobretudo na nossa realidade. Estou a referir-me às questões objectivas e subjectivas do nosso futebol e do nosso País. E agora eu coloco uma questão: O surgimento da Liga é desejado por todos os clubes ou somente pelos grandes do nosso futebol? É atractiva para os nossos investidores?

TRANSPARÊNCIA
Reis defende contas em dia


JD – Quem são os nossos investidores?
JER – No início de cada época desportiva, os clubes devem ter a sua situação financeira devidamente regularizada com o fisco e a segurança social, algo inédito no nosso futebol. A liga procede ao levantamento dos débitos fiscais até uma semana antes do início do campeonato com vista à sua regularização. As contas dos clubes são auditadas.

JD – Há contabilidade organizada nos clubes? A escrituração está em dia? Há o registo de toda a movimentação financeira?
JER – Hoje movimentam-se milhares e milhares de dólares no pagamento a jogadores, técnicos e ninguém paga ao fisco, porque o nosso futebol é considerado amador. Com a institucionalização da Liga de Clubes tudo seria diferente. Digo isto porque o atleta amador é aquele que pratica um desporto, uma arte por prazer, sem fazer disso o seu modo de vida e sem quaisquer remunerações. Torno a fazer outra pergunta para quem está a acompanhar o meu raciocínio. O nosso futebol é amador? É não amador? É profissional? Ou profissional encapuçado? Se assim for, do ponto de vista jurídico-legal é contrário à lei porque os jogadores fazem contratos com os clubes. Vejamos, quanto ganha o Rivaldo, o internacional brasileiro de 40 anos de idade que representa o Kabuscorp do Palanca? Os jogadores assinam por uma, duas ou mais épocas. As cópias dos seus contratos passam pela Federação Angolana de Futebol? Passam pelo Sindicato dos Jogadores? Há clubes do Girabola que firmaram contratos com a Dstv, canais 208 e 211, foram autorizadas por quem? Sem autorização da Liga estes clubes seriam sancionados. 

APOIO DO ESTADO
Ante-projecto é necessário


JD – Qual é a chave para atingirmos a Liga?
JER – Após analisada a realidade do nosso futebol e a sua expressão actual no contexto africano, urge a criação de premissas para se atingir essas metas. Primeiro: apresentação de um Ante-projecto de uma Liga de Clubes. Uma legislação que tem como objectivo orientar o futebol profissional, novas infra-estruturas, a formação, o equilíbrio financeiro e a manutenção de um campeonato competitivo; segundo: criar uma Comissão que estuda, aprova e normaliza o profissionalismo do futebol em Angola. Terceiro: mudar o modelo de organização do Girabola, desde a redução do número de equipas ao reforço do apoio do Estado.

JD – E o que deve ser feito para que a ideia vingue?
JER – Para que isto aconteça a Liga tem de apresentar um pacote de iniciativas. Levado este dossier ao Ministério da Juventude e Desportos, o Executivo publica um Decreto-Lei que delimite o regime jurídico das Federações Desportivas dotadas de Utilidade Pública.Esse Diploma distingue as competições profissionais das não profissionais e consagra a participação dos principais agentes desportivos – jogadores, árbitros e treinadores – na Assembleia-Geral das Federações, assim como deve estipular que a gestão das competições profissionais compete a um organismo autónomo.

PROPOSTAS
Pinto Leite é referência


JD – Pode apontar alguns nomes para liderar a Liga?
JER – Temos muito bons dirigentes desportivos, entre eles João Gonçalves, da Huíla, Quarta Punza, Pires da Conceição, Nando “Russo”, Pinto Leite, de Benguela, Samy Muai, de Cabinda, Domingos Ayonda, Dionísio de Almeida, Moreira da Secil, Bastos de Almeida “Likas”, Rosário Ima Panzo, do Namibe, Bolota de Benguela, o “Yayá”, o “Ninito” dos Perdidos, enfim, muitos outros que me escapam.

JD – Qual é o tempo de transição necessário?
JER - Há que reconhecer a complexidade da questão e por via disso, a enorme dificuldade de fazer previsões seguras sobre esse horizonte temporal. Há que contar com pessoas para assumir. É absolutamente imperiosa a reflexão sobre o assunto, o seu futuro, até porque nos obriga a tomar consciência dos passos do presente. Contudo, a futura configuração do nosso futebol baseia-se na vontade em defendermos aquilo que queremos. Dois, três anos são o suficiente. O tempo de transição tem de ter balizas concretas, os pés bem assentes no chão, linhas de rumo bem definidas, opções estratégicas, claras e transparentes. Deste modo, aproveito a oportunidade para apelar às entidades de direito para que se reúnam numa mesa redonda, em prol da Institucionalização da Liga profissional de Futebol, de modo a reestruturarmos o futebol.