Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vá quer justificar regresso

Paulo Caculo - 26 de Março, 2017

Vá jogador do Progresso integra a Selecção Nacional que ontem defrontou Moçambique

Fotografia: M.Machangongo

A história da carreira do jovem futebolista Vladimir Edson Félix, ou simplesmente Vá, coincide com o percurso de muitos outros craques que emergiram no mundo do desporto e que encontraram no futebol à porta de salvação para as respectivas famílias e a garantia do seu futuro.

O menino de 18 anos que brilha nos relvados do Girabola com a camisola 17 do Progresso do Sambizanga, teve de \"comer o pão que o diabo amassou\", antes de proporcionar à sua mãe, doméstica, oriunda do Cuanza Norte uma esperança de vida melhor em relação aquela enfrentada em Ndalatando.

“Jogar futebol sempre foi o meu sonho e houve situações que dormia e sonhava com uma bola de futebol. Sabia que um dia podia jogar no Girabola, afinal era uma questão de tempo”, admitiu.

Duas pessoas influenciaram na sua carreira e confessa que deve tudo a eles. \"Devo todo o meu sucesso ao mister Camará e o senhor Adão Costa, que considero como um pai, porque foram eles que tiraram-me da rua para jogar no Real Sambila\", afirmou o jovem talento e com um futuro promissor.

Tinha apenas seis anos quando, carregado pela mãe ao colo, desembarcou em Luanda. Oriundo de uma família de pouquíssimos recursos, Vá (filho único) e a mãe acabaram acolhidos por familiares em Viana, onde viriam a permanecer apenas dois anos, antes da mãe arrendar uma casa no bairro Prenda.

“Como o meu pai ficou no Cuanza Norte, estive sempre ao lado da minha mãe. Sofri muito e quero dar o melhor aos meus pais, sobretudo, à minha mãe que sempre procurou alguma coisa para me dar de comer”, contou o jogador.

A viver no bairro Prenda, um bairro fértil em jogos de bairros e propenso no lançamento de talentos, Vá rapidamente integrou-se na vizinhança e o seu talento nos trumunus aos fins-de-semana, no campo do Felício deu logo nas vistas e aquilo que podia ser uma mera diversão, acabou por ser para o puto talentoso uma oportunidade para mostrar o seu potencial aos olheiros do bairro.

“Estava a jogar quando o mister Camará chamou-me e convidou-me à ir treinar na equipa dele. Na altura, não dei nenhuma resposta porque tinha de conversar primeiro com a minha mãe”, atirou o jovem que admitiu ser apanhado de surpresa, já que nem botas em condições tinha para apresentar-se aos novos colegas no Real Sambila.

A resistência viria a durar apenas dois dias porque no terceiro, Vá despediu-se do complexo que o afligia e foi bater à porta da casa do técnico Bruno Malamba Camará, de onde sairia de lá com a promessa de que se jogasse o suficiente, ganharia vários pares de botas ou chuteiras e uma carreira brilhante pela frente.

Tinha apenas oito anos quando resolveu dar início a carreira nas escolas de formação do Real Sambila. Depois de aprovar nos testes a sua ascensão às outras categorias aconteceram com naturalidade, pois, o técnico Camará em momento nenhum duvidou das suas qualidades e talento.

Não foi por acaso que esteve apenas um ano nos infantis, tendo passado de imediato para os iniciados e no ano seguinte, ainda com idade de iniciados, o treinador coloco-o nos juvenis e logo ascendeu aos juniores fazendo na altura dupla categoria.

“Acho que tive sucesso porque fui muito bem tratado e os treinadores receberam-me também muito bem. Acho que não tenho razões de queixas e devo continuar a agradecer todo o apoio que tive na minha formação como futebolista no Real Sambila”, reconheceu.

Dada a sua rápida progressão na carreira, o jogador não teve dificuldades em encontrar o sucesso. Ainda a jogar no Real Sambila, Vá chega às selecções de sub-17, sondado por Simão Languinha, tendo sido fundamental no torneio da CPLP e rotulado como melhor jogador da prova.

As exibições viriam a despertar a cobiça do Progresso Sambizanga, cujo treinador por Albano César fez questão de assumir os riscos e propor a contratação do jogador. A presença na selecção foi a ponte que projectou o avançado, hoje adaptado a extremo no plantel sambila, para uma carreira ao mais alto nível.

“Estou feliz no Progresso e espero continuar a jogar aqui. Fui muito bem recebido e tenho feito de tudo para continuar a corresponder com as expectativas”, assegurou Vá, que na segunda época nos sambilas, com 18 anos, é um dos titulares no plantel de Kito Ribeiro.


CARREIRA
Terceira presença nos Palancas


Vá protagoniza a terceira internacionalização pela selecção ‘AA’, depois de já ter passado pelos sub-17. A primeira vez que o médio ofensivo do Progresso mereceu oportunidade para vestir as cores nacionais do combinado de honras foi pelas mãos de José Kilamba, então seleccionador nacional, tendo em vista as eliminatórias do CHAN. Nessa altura, o jovem talento já confirmara os créditos que o habilitam como um jogador em franca progressão.

“Não podia estar mais feliz. Chegar à selecção é o sonho de qualquer jogador. Espero continuar a merecer a confiança dos treinadores para estar aqui”, disse, na altura, Vá, visivelmente emocionado.

Agora às ordens de Beto Bianchi, o jogador voltou a manifestar a ambição de vencer a aposta. Enaltece o facto de ter sido escolhido entre vários jogadores da sua idade e de grande qualidade. Espera justificar a convocatória, ao mesmo tempo que deseja conquistar tão cedo quanto possível um lugar de destaque nos titulares. “O meu grande objectivo na selecção principal é fazer o maior número de jogos possível, estar entre os titulares e marcar golos. Quero muito ajudar a selecção a concretizar os objectivos”, sublinhou o extremo ofensivo.

“Quando jogadores da nossa idade chega a selecção principal, significa que temos sido acompanhados pelos técnicos. O que mais desejo, agora, é aproveitar ao máximo a oportunidade para continuar a merecer um espaço na selecção”, acrescentou a \'coqueluche\' dos sambilas.                                      
                                                

BRUNO CAMARÁ
“É o melhor atleta”


Bruno Malamba Camará é o técnico responsável pela descoberta do extremo ofensivo Vladimir Félix \"Vá\". O treinador considera que nunca teve dúvidas do talento do jogador, desde a altura em que, ainda nas ruas do bairro Prenda o miúdo começou a dar nas vistas.

“Nunca tive dúvidas do talento deste jogador. É pena que no nosso país começamos a acompanhar o jogador muito tarde. Quem via o Vá a jogar nas ruas do Prenda, tinha logo a certeza de que seria um jogador com futuro promissor”, destacou.  O treinador referiu ainda que “teve sempre uma ambição extraordinária. Quando ele era adolescente tinha muitos problemas de indisciplina. Ele tem uma coisa que eu sempre admirava nele”.

Para si, \"podia não o convocar, mas ele estava sempre presente nos jogos para assistir e apoiar os colegas. Não gostava de ficar em casa. E mesmo não sendo convocado, um dia cheguei a mandá-lo equipar-se, entrou e ainda fez dois golos\".

O treinador do Real Sambila garantiu, por outro lado, que Vá sempre foi um jogador com um potencial muito grande, razão pela sempre não teve receios em apostar no jogador.

“Também não tive dúvidas de que ele um dia iria jogar na selecção principal. Acredito que ele vai se impor nesta selecção, porque é o melhor jogador do Progresso actualmente”, disse.

“Uns duvidaram e hoje as pessoas ligam para mim a dizer que tenho razão e outro simplesmente a me darem os parabéns por ter apostado no miúdo.

E tenho a certeza que, este ano, o Vá vai passar dos 12 golos no Girabola. Já tem três golos e ainda estamos na sétima jornada”, acrescentou Bruno Malamba.  O técnico considera, ainda, que a posição do Vá  sempre foi a de ponta-de-lança, mas como as pessoas não conhecem o jogador compreende que haja algum receio do treinador em colocá-lo na posição de avançado.

“Futuramente quando as pessoas conhecerem o jogador vão notar que é um número 9. É muito forte nas segundas bolas e finalizador nato”, concluiu.