Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vamos competir nos Jogos da SADC para dignificar a Bandeira de Angola

Manuel Neto - 11 de Dezembro, 2010

Técnico de Sub-20 pretente uma participação condigna

Fotografia: Mota Ambrósio

Como decorreu a preparação dos Jogos da SADC, que têm lugar em Mbambane, Suazilândia? 
A preparação decorreu com normalidade, embora tenham existido alguns percalços devido à presença irregular de alguns jogadores que estavam em provas escolares. Apesar disso, todo o esforço foi feito e, na última semana, pudemos já trabalhar juntos. Lamento o facto de não ter conseguido juntar o grupo no momento certo para um trabalho mais profundo. Mas as condições foram criadas para termos uma representação condigna na competição.

Os poucos jogos de controlo não vão pesar no rendimento do grupo?
Estávamos no final da época e nesta fase não existiam equipas para fazer jogos de controlo. Para colmatar esta falta, contámos com a gentileza de alguns grupos de jogadores do Girabola e da II Divisão. Assim, foi possível realizar alguns jogos de controlo e acho que foram benéficos, uma vez que pudemos limar algumas arestas importantes para a empreitada que temos.

Que outras dificuldades enfrentou?
A outra foi termo-nos preparado numa fase em que estavam quatro selecções a trabalhar: a nossa de Sub-20, a de Honras, a Sub-20 BB e a selecção feminina. Isso acabou por acarretar grandes dispêndios logísticos, o que também nos afectou. Mas tomamos todas as cautelas para que as dificuldades fossem suprimidas.    

Fez muitas correcções técnicas durante última preparação. Concretamente, o que quis aprimorar?
Foram a concentração, com particular realce para os aspectos tácticos, porque, embora estivessem no bom caminho, denotamos, mesmo assim, alguma falta de rigor. Essa foi a nossa grande atenção, porque os jogadores, após uma época desportiva muito tensa, estavam em repouso e foi imprescindível, primeiro, fazer-se a avaliação do grupo, equilibrar as cargas e trabalhar, incisivamente, nas questões acima enumeradas.

O ataque tem sido muito perdulário. O que podemos esperar dele?
Essa é a nossa grande lacuna. Temos um défice muito grande nessa área, mas porque o futebol é um todo, não vamos esperar que os golos surjam apenas dos atacantes. Nessa esteira, procuramos encontrar uma fórmula que não seja mágica, mas aquela que nos permita colmatar esse défice.

Já agora que objetivos persegue nesta competição?
Em primeiro lugar, ter uma boa representação, formar bons jogadores para as futuras selecções, quer como atletas, quer como homens com bom comportamento social. Sabemos que a fase da juventude é muito melindrosa, logo, implica um melhor acompanhamento desta franja, para um melhor equilíbrio competitivo.

O grupo que seleccionou oferece garantias para o que se propõe?
É um grupo que já conheço. Trabalhámos juntos há bom tempo e tem dado bons sinais. Por isso, vamos esperar que tudo corra bem durante a competição.

Qual será, para si, o adversário mais difícil na prova?
Todos os que estão na competição. Sabe que toda a equipa que vai competir, espera oferecer resistência aos seus opositores no intuito de colher bons frutos. Nessa senda, estamos preparados para o que der e vier, embora não conheçamos bem o valor dos nossos adversários.

Notamos que os atletas seleccionados são os habituais, ou seja, os que trabalharam desde Maio. Por que razão isso aconteceu?
Isto é certo. Infelizmente, a SADC peca nisso. Não conseguimos seleccionar outros atletas desde Maio, altura em que a equipa foi inscrita. É uma pena, porque estariam em representação outros atletas que estiveram bem durante o Girabola e que poderiam dar outra competitividade à equipa. Penso ser um problema que os nossos dirigintes devem resolver, porque não fica bem inscrevermos atletas em Maio para competirem em Dezembro. Acho que é um grande erro da SADC, que deve ser imediatamente corrigido.

Fale-nos dos escalões de formação no país.
Penso que é uma questão que levaria muito tempo a ser abordada, porque a formação tem várias vertentes. Inclui a formação de treinadores, dirigentes e atletas, na vertente académica e desportiva. São aspectos que devem ser acautelados, porque a maior parte dos jogadores de hoje não passaram pelo processo do ensino normal, não passaram pela educação física que, a meu ver, é um factor determinante para uma boa carreira desportiva.

Está a querer dizer que os técnicos também carecem de formação?
Estou querer dizer que os formadores, jogadores, dirigentes, ou seja, todos aqueles que servem o desporto devem receber constantemente formação. Porque a formação é um processo contínuo, ninguém aprende tudo num só dia. Por isso, todos nós devemos estar inseridos neste processo para que o desenvolvimento desportivo seja um facto.

Falsificação das idades
é uma dor de cabeça

Como encara o problema da falsificação das idades nesta faixa etária?
É uma grande dor de cabeça, infelizmente, pactuada por muitos agentes desportivos. E temos assistido a isso. Mas, devo dizer que a maior parte da falsificação não tem sido feita pelos jogadores, mas sim por certos dirigentes que, a todo custo, tencionam atingir resultados imediatos, numa faixa onde esses resultados não devem estar em causa. Portanto, a falsificação de idades é um grande mal que enferma o nosso futebol e apelo a toda a sociedade no sentido de lutarmos contra esse mal.

Pode apontar uma das soluções?
Há um conjunto de normas que deve regular isso, desde o registo de nascimento, tratamento do bilhete de identidade cedo, ou seja, a partir dos 9 aos 10 anos de idade, acompanhamento dos documentos escolares, entre outros aspectos. Se esses pormenores forem acautelados, podemos reduzir esse mal, que em nada contribui para o desenvolvimento do nosso desporto. Porque, quanto maior for a falsificação, maior serão as hipóteses de prejudicar o desenvolvimento do nosso desporto. Se um atleta, na fase de formação, tiver a idade alterada, nas fases subsequentes pode sentir o peso, ou seja, não terá o mesmo rendimento que um atleta que tenha a idade certa. Em suma, pode terminar a carreira mais cedo do que se perspectivava e com ele coarctar o eventual surgimento de um novo talento.

Que opinião tem do futebol angolano?
Como todo o processo de crescimento tem as suas oscilações, o futebol não foge à regra, está num processo de crescimento e está a oscilar. Desse modo, devemos fazer as análises e reflectir para, rapidamente, atingirmos os nossos propósitos. Em suma, o nosso futebol está a crescer e há meses o Girabola provou-nos isso ao proporciona-nos um campeonato bastante competitivo, que resultou no surgimento de novos valores.

O Interclube mereceu o título de campeão do Girabola?
Claro que sim, foi a equipa mais regular do Girabola. Basta ver que, no final, foi a equipa que melhor e mais prémios arrebatou na gala da Rádio 5. Portanto, a equipa da Polícia teve um ano desportivo em grande em quase todas as modalidades desportivas e faço votos que continuem na mesma senda.

O que lhe diz o mau momento por que passa a Selecção?
Acho que esta fase vai passar, conheço bem a casa, vamos acreditar, porque temos um técnico que conhece bem a casa. É um jovem ambicioso, foi meu técnico e pela sua experiência, pode vingar. Por isso, apelo a toda a sociedade angolana no sentido de prestarem o seu apoio, porque este é o momento em que todos angolanos se devem unir em torno da Selecção Nacional.

Caçulinhas são
contributo valioso

No mês passado foi lançado o torneio dos Caçulinhas da Bola. Pode ser um caminho para salvação do futebol jovem?
Não podemos ver nos Caçulinhas da Bola a salvação de um país. Mas acho que é um contributo bastante valioso, que deve merecer apoio de todos nós, porque ressaltam, nesta competição, alguns aspectos que devemos ter em conta. Estive presente em algumas reuniões do Movimento Nacional Espontâneo e notei que existe uma grande preocupação em relação à questão escolar. Devemos todos trabalhar unidos, criando condições, sobretudo de Infra-estruturas sociais. Porque se assim não for, quando estes Caçulinhas transitarem para seniores, não irão a lado nenhum.