Jornal dos Desportos

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Entrevistas

“Vamos ficar no Girabola”

Augusto Panzo - 24 de Outubro, 2017

Antigo internacional angolano João Pereira

Fotografia: Paulo Mulaza / Edições Novembro

Para não variar, o ASA volta a lutar para a fuga à despromoção, como avalia a actual situação da equipa, em função da posição em que se encontra no Girabola Zap. Os adversários que tem pela frente e os concorrentes nesta condição?
 "Apesar da crítica à situação em que o ASA vive, ainda acredito que não desça de divisão, porque mesmo quando jogava, participei em muitos jogos, que em princípio, eram impossíveis, mas acabaram por se tornar realidade. Por esta experiência que carrego, acredito que o ASA consiga sair dessa situação de iminente despromoção em que se encontra".

JD - Acha, que nesta fase crucial da época, se os patrocinadores cumprirem com as suas obrigações podem motivar os atletas para a missão quase impossível..?
"Ainda que os patrocinadores não cumpram pelo menos com os 40 ou 50 por cento dos dinheiros em falta, vamos lutar com as 'armas' disponíveis, para sair dessa situação. Reafirmo, o ASA não vai descer de divisão".

JD - Face ao cenário que o clube enfrenta, e que em nada dignifica o estatuto que ostenta a nível nacional, alguma vez pensou em candidatar-se a presidente do ASA, para voltar a dar a dignidade que merece?
"Não. Porque eu sou pobre e a um pobre não se aconselha a aventurar-se para este tipo de cargos. Eu fiz a minha formação de treinador no Brasil, e mesmo lá, os prelectores diziam sempre que para se ser dirigente de um clube não pode ser pobre. Tem de ser rico, porque ao contrário, não estará a fazer absolutamente nada"

Em Angola existem presidentes que não são ricos, e gerem bem os clubes que dirigem. Não acha, que o segredo está na gestão das verbas, alocadas pelos patrocinadores?
"Sendo um dirigente pobre, os jogadores quando estiverem mergulhados em qualquer dificuldade, vão recorrer ao presidente, e eu não estarei capacitado para satisfazer a necessidade. Um dia que isso acontecer em Angola, que um presidente de clube for um pobre, então o nosso futebol vai evoluir, porque eu Jamba, em nenhum momento aceitava arriscar a candidatar-me para esses cargos, enquanto for pobre. Não aceito. O dirigismo não se compadece com a pobreza.

Não respondeu à minha pergunta, ainda assim insisto, se fosse rico e pelo carinho que tem pelo clube, mesmo que não quisesse ser presidente estava disponível a conceder o apoio  financeiro para ajudar o ASA?
Sem dúvidas que estaria disponível, sem nenhum problema. A título de exemplo, quando eu ainda jogava, ajudei muito o ASA. Mesmo até agora, há coisas que compro para o clube, com o pouco que às vezes consigo, através das minhas amizades. Se eu tivesse mais, ajudaria sem problema nenhum, porque é um clube que gosto muito, e não quero ver "morrer".

Acredita que se todos os "aviadores" dessem as mãos, nos momentos difíceis que a equipa atravessou esta época, evitariam o quadro actual que o clube enfrenta?
Claro que sim. Aproveito a oportunidade para apelar aos adeptos, simpatizantes e outros que gostam do ASA, para que ajudem em tudo quanto seja possível, no sentido de lutarmos em conjunto para salvar o clube. As pessoas devem saber, que o ASA não é clube dos senhores Elias José, Manuel de Almeida ou Manuela de Oliveira. É um clube de todos os associados.

Defende, que os associados deixem para trás as quesílias pessoais, e coloquem o clube em primeiro lugar?

Sem sombra de dúvidas que sim, porque se continuarem nessa direcção, o ASA pode correr o risco de desaparecer, o que seria muito triste para nós amantes desse clube.

Defende a necessidade de todos estarem unidos para evitar o pior cenário para o ASA?

JP - Sim. Não há nada impossível neste sentido. Aliás, é dura a situação que o ASA vive, mas enalteço aqui, a postura do presidente Elias José, que por vezes faz das tripas coração,  cobre certas despesas do clube com dinheiros próprios, na expectativa  que lhe sejam devolvidos, depois dos patrocinadores alocarem as verbas.

REVELAÇÂO
“Novo elenco da FAF indicia bom trabalho” 

Que avaliação faz, do momento actual, do futebol nacional?

"É uma pena falar do futebol na actualidade, porque regrediu muito, e de que maneira. Apesar do actual elenco federativo ter pouco tempo de trabalho, estou a notar que está a fazer alguma coisa, e vejo que a dinâmica que há agora na FAF, não existia antes quando o senhor Justino Fernandes saiu à frente dos destinos dessa instituição, o nosso futebol baixou um pouco".

O que notou de bom, nestes primeiros 11 meses de trabalho, do elenco de Artur Almeida?
"Algumas melhorias, embora, de forma medonha. Sei que o senhor Artur Almeida está apostado nas selecções jovens, com o fito de resgatar os níveis de futebol que Angola já granjeou. Acho que com a entrada desse novo elenco na FAF, está-se a conseguir fazer qualquer coisa que me faz prever, que ao longo dos próximos quatro ou cinco anos vamos ter selecções fortes, não apenas em honras, também nas outras faixas etárias".

Ainda assim, guarda boas recordações da carreira de futebolista, não obstante avaliação que faz dos dirigentes que passaram pela Federação?
"Pouca coisa, mas muito valiosas. Tive a oportunidade de chegar em locais, em que se não fosse futebolista, não era reconhecido. Criei amizades, que valem muito mais do que o dinheiro. Fui bafejado com uma casa pelo antigo Presidente da República, Sua Excelência, o  Engº José Eduardo dos Santos, no âmbito da participação de Angola no Campeonato do Mundo, Alemanha 2006. Consegui alguma formação como treinador de futebol, no Brasil. Então, acredito que não ganhei muito, para chegar a ser rico, mas também não perdi nada".

RECORDAÇÃO
Carlos Alhinho marca sua vida


Ao longo da sua carreira foi um atleta com presença constantes nos Palancas Negras. Quem foi o primeiro treinador a convocá-lo para uma selecção nacional?
"Foi o falecido professor Carlos Alhinho. Na altura eu tinha por aí 15 ou 16 anos, por volta de 1993 ou 1994 e jogava como júnior no 1º de Maio. Ele era o treinador da selecção de Sub/20 e foi fazer um périplo na região sul do país, com a missão de descobrir outros talentos. Posto lá, organizou um torneio de futebol viu-me e gostou da minha forma de jogar. Algum tempo depois foi à minha busca para vir integrar pela primeira vez uma selecção nacional. E só foi bom, porque se não fosse essa iniciativa do professor Carlos Alhinho, eu já nem poderia continuar a jogar futebol. Tenho muita gratidão a ele por este facto".

Teve alguma decepção para terminar cedo a carreia?
"Estava a terminar o liceu e já trabalhava na África Textil como eventual, por ser menor de idade. Então o treinador Carlos Alhinho é que impulsionou à minha vida para o futebol, pois, depois de integrar aquela selecção, a minha continuidade da prática do futebol foi uma certeza".

Teve sempre boa impressão do treinador Carlos Alhinho?
"Fiquei sempre com boas impressões dele. Foi ele quem descobriu o meu talento em termos de selecção, depois da fase de iniciado levado acabo por Paulo Chivela nos caçulinhas. Isso ajudou catapultar-me à alta roda competitiva internacional. Aconselhou-me a não abandonar o ASA assim que saísse do 1º de Maio. Esteve sempre ao meu lado, mesmo quando eu estivesse integrado na selecção "AA", fazia sempre parte do combinado nacional de Sub/20. Fizemos muitos jogos com ele, ao serviço da selecção Sub/20. Por isso, considero que foi o treinador que me descobriu".

Que recordação guarda dele?
"Foi um dos melhores treinadores que me marcou. Tinha carácter, sabia muito sobre o futebol e era exigente. Foi o treinador que a nível das selecções de Sub/17 e Sub/20 mais deu as condições de trabalho e de alimentação aos jogadores.

CARREIRA
“Tive convites dos clubes do topo”

Onde e quando começou a ganhar o gosto pelo futebol?
"Eu comecei a ganhar o gosto pelo futebol na escola primária do meu bairro de Chingoma, em Benguela, conhecida por escola da Pecuária. Foi lá onde iniciei os meus estudos e aí apareceu um treinador de futebol dos caçulinhas chamado Paulo Chivela, que levou-me para a empresa Confecções Skyna onde joguei por duas épocas nos escalões de caçulinhas".

Como é que entra na alta competição nacional?
"Entrei na alta competição pela equipa do Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, onde me transferi e joguei por uma época no escalão de juvenil. Dadas as qualidades demonstradas, o professor Vissimbry meteu-me logo na equipa júnior, onde joguei durante uma época. Ainda com a idade de júnior fui logo promovido para a equipa sénior, que representei apenas por cinco meses, pois, fui de imediato transferido para Luanda.

Quem o trouxe para Luanda e em que ano?
"Cheguei a Luanda pelas mãos do senhor Paulo Tomás e do mister Veselin Vesco, isto em Setembro de 1996. Os professores Vesco, José Kilamba e Oliveira Gonçalves foram os meus treinadores no torneio de Toulon em 1996. Depois fui convidado para jogar pelo ASA, clube que representei durante toda a minha carreira como sénior ao lado de outros atletas oriundos de Benguela que encontrei no clube como, Beto Carmelino, Arlindo, o Paulo Tomás. Estava praticamente num ambiente familiar e eles incentivaram-me a ficar no ASA".

Ao longo das duas décadas com a camisola aviadora nunca foi assediado por outro clube dos grandes do futebol nacional?
Já tive convites para representar o Petro de Luanda, 1º de Agosto, mas eu era feliz no ASA, porque não vim para aquele clube por causa do dinheiro, apesar deste ser um componente sempre necessário na vida do homem. Preferi manter-me no clube do aeroporto, pois, para além de jogar, dava-me a oportunidade de permanecer numa cidade segura, visto que vivíamos um tempo de guerra em todo país.

Que dificuldades se refere? 

"Falo em dificuldades com o pagamento dos salários, luvas contratuais. Todos os anos ficava em divida. Muito dinheiro meu ficou por receber no ASA, mas pronto... Vamos fazer como......?!
A situação que se vive actualmente no ASA não surpreende, até porque já vem se arrastando há muitos anos?
Sim. O ASA só não teve problemas similares no tempo da presidência de João Andrade. Naquela altura ganhávamos muito pouco, mas recebíamos. Não tínhamos luvas, mas também não tínhamos problemas. E como eu era jogador de selecção, isso compensava muito na melhoria da minha estabilidade financeira, recebendo alguma coisa nos Palancas Negras.

CONFISÃO
“Oliveira Gonçalves é o melhor
técnico de todos os tempos”

Qual foi o momento mais alto da sua carreira futebolística?
"Sem sombra de dúvidas, o momento mais importante da minha carreira foi a ida ao Mundial da Alemanha em 2006, depois daquela vitória que conseguimos arrancar a ferro e fogo no Ruanda. Esse será um facto inesquecível da minha vida futebolística".

E o momento mais baixo?
"Olha, o momento mais baixo da minha carreira foi quando nós estávamos a um passo do CAN de Sub/20 em 1994. Perdemos por 3-1, nos Camarões e precisávamos ganhar cá em Luanda por dois a zero. Aconteceu mesmo que estávamos a ganhar por dois a zero, quando no segundo tempo fui infeliz e provoquei uma grande penalidade".

O que sentiu na altura?
Senti na altura que tinha chegado o momento de deixar de jogar futebol. Já não queria mais jogar. Foram precisos vários conselhos para me convencerem a continuar". Foi o "comandante" Prata, o Akwá e o Yamba Asha que me incentivaram a voltar para a selecção, porque depois daquele jogo, eu já não queria mais continuar a minha carreira".

Que recordações tem do professor Oliveira Gonçalves, o obreiro do feito de qualificar Angola no inédito mundial?
"É um bom treinador, humano acima de tudo. Conseguiu juntar um grupo, que a priori não era tido como forte candidato a ida ao Mundial, mas conseguiu torná-lo favorito, graças à sua sabedoria, humildade e o contacto que mantinha com os dirigentes da federação, porque tudo que ele falava estes cumpriam na ocasião, razão pela qual tudo deu certo. Sem sombra de dúvidas, foi o melhor treinador na história do futebol angolano.