Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Vamos ganhar o ttulo africano"

Melo Clemente, em Abidjan - 30 de Agosto, 2013

ngelo Vitoriano recebeu a misso de transmitir em Abidjan a sua experincia Seleco Nacional

Fotografia: M. Machangomgo/Abidjan

O antigo internacional angolano, Ângelo Vitoriano, que se encontra em Abidjan, capital da Costa do Marfim, onde  acompanha os jogos da fase final da 27ª edição do Campeonato Africano das Nações, vulgo Afrobasket, a convite do Ministério da Juventude e Desportos (Minjud), assegurou em entrevista exclusiva ao Jornal dos Desportos que o combinado nacional com maior ou menor dificuldades vai conquistar o título africano perdido em 2011, a favor da Tunísia.

O jogador mais titulado de Angola, com nove troféus conquistados ao serviço da Selecção Nacional, sendo oito como jogador e um como treinador adjunto, para além de várias participações em fases finais de Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos alertou sobre a necessidade de se trabalhar cada vez mais nos escalões de formação de forma a construir-se uma base sólida capaz de sustentar as conquistas a nível dos seniores.

 Apesar de acreditar na conquista da 27ª edição do Afrobasket que amanhã se despede, com a disputa da final, o antigo internacional angolano, que brilhou ao serviço do Petro de Luanda, Atlético Sport Aviação (ASA) e 1º de Agosto, isto a nível doméstico, para além de se ter notabilizado na formação portuguesa de Queluz, não acredita que Angola venha a dominar nos próximos anos o continente africano, em face da pouca atenção que se dá a nível dos escalões de formação.

Nascido numa família de exímios desportistas, Ângelo Victoriano integrou a Selecção Nacional de seniores aos 17 anos de idade, isto em 1987.
Exímio jogador a actuar na posição extremo, com grande capacidade de finta e forte nas jogadas de um contra um na altura, Ângelo Victoriano foi obrigado a jogar como poste, em face da sua altura e peso.

Ângelo Victoriano começou por abordar  o nível competitivo das 16 selecções, que no seu entender é positivo.

“Houve uma certa evolução no basquetebol africano. Hoje, já existem selecções que estão táctica, tecnicamente e fisicamente bem. Acredito que de uma maneira geral o basquetebol africano está no bom caminho, porque já existem mais de cinco selecções a praticarem um basquetebol com qualidades acima da média. Refiro-me à nossa selecção, à Costa do Marfim, Nigéria, Senegal, Egipto, Tunísia e Camarões.”

Embora reconheça a evolução das demais selecções, o antigo internacional angolano afirma que o título da 27ª edição do Afrobasket vai mesmo para Angola.

“Independentemente de haver esta evolução que é muito boa, penso que se houver maior empenho e dedicação e acima de tudo espírito de grupo, que é extremamente fundamental, vamos ganhar o título africano com maior naturalidade”, asseverou Ângelo Vitoriano.

As exibições pálidas patenteadas pela Selecção Nacional, fundamentalmente, durante a fase preliminar, onde conseguiu três vitórias, sem no entanto, convencer os amantes da modalidade, deveram-se ao facto do combinado nacional ter subestimado os seus adversários, de acordo com o nosso entrevistado.

“Quanto às exibições menos conseguidas durante a primeira fase, a meu ver, houve um certo menosprezo dos nossos atletas e os adversários agigantavam-se. Eu conversei com o grupo, aliás, por isso, é que estou aqui e falei-lhes da necessidade de valorizarem todo e qualquer adversário que aparecer e só com esta postura vamos conseguir vencer este Afrobasket”, alertou.

Ângelo Vitoriano disse por outro lado que já transmitiu o calor dos ex-internacionais angolanos ao grupo que tem a missão de levar o troféu ao país.
“Como sabe, nós antigos internacionais estamos aqui a convite do senhor ministro, Gonçalves Muandumba, no sentido de transmitirmos a nossa experiência aos mais jovens e esta mensagem já foi passada ao grupo.”

O antigo internacional destacou a forma como o grupo o recebeu, tendo-se mostrado bastante comovido.

“Está a ser maravilhosa a convivência com o grupo de trabalho, aliás, eu tenho uma amizade muito estreita com a maioria dos jogadores, são jovens muito bem educados, como base eles passaram por nós e beberam da nossa experiência. Foi uma experiência boa e senti-me, a dada altura, como se fosse ainda jogador.”


Constatação
Domínio em África tem dias contados


Apesar de acreditar na conquista da 27ª edição do Afrobasket da Costa do Marfim, a hegemonia de Angola no continente africano tem os dias contados. A constatação é do antigo internacional angolano, Ângelo Vitoriano, que a par de Miguel Lutonda, Edmar Vitoriano “Baduna”, Manuel de Sousa “Necas e Víctor Muzadi testemunha a disputa da prova que apura os três representantes do continente africano ao Campeonato do Mundo de Espanha, em 2014.

“Para lhe ser sincero como angolano e homem do basquetebol, acredito que vamos conquistar este Afrobasket porque temos um grupo com jogadores de grande qualidade porque já demonstraram ao longo destes últimos anos. Agora, para 2015, 2017 e por aí fora já não teremos equipa para manter este domínio. Hoje, não temos naipe de jogadores com qualidade para num futuro breve podermos substituir essa rapaziada. Mas nós vamos pagar a factura de não estarmos a trabalhar nas camadas jovens tal como se fazia antigamente e creio que estas vitórias que fomos alcançando nos últimos tempos estão a esconder muita coisa.”

Ao contrário do que se fazia antigamente, onde havia trabalho sério nos escalões de formação, hoje praticamente este trabalho não existe.

“No meu tempo, por exemplo, a nível dos juniores saíram jogadores como Paulo Macedo, Paulo Madeira, David Dias, Manuel da Silva “Gi”, Jorge, Marcolino, Víctor Rafael de Carvalho, Benjamin Romano, entre outros, portanto eram jogadores com qualidades inquestionáveis e que passaram a integrar a pré-selecção nacional. Hoje, não temos jogadores para podermos afirmar que estes são os substitutos desta geração.”

Depois da geração de Miguel Lutonda, Carlos Almeida, Joaquim Gomes “Kikas” e Mário Belarmino deixou-se de trabalhar a sério nas camadas jovens, segundo Ângelo Vitoriano.
MC


Revelação
“Não existe
líder no grupo”


Apesar do espírito de grupo reinante na Selecção Nacional, que procura na Costa do Marfim o 11º anel continental e consequentemente o apuramento ao Campeonato do Mundo de Espanha, marcado para o mês de Setembro em seis cidades, o cinco nacional carece urgentemente de líder, de acordo com Ângelo Vitoriano.

“Nós temos uma Selecção com espírito de grupo em todos os aspectos e isso é extremamente positivo para aquilo que são os nossos objectivos. Por aquilo que me apercebi a Selecção Nacional precisa urgentemente de encontrar um líder no verdadeiro sentido da palavra e honestamente nós não temos. Quando falo em líder não estou a referir em relação aos treinadores. No seio dos jogadores tem de haver alguém que seja capaz de dar um puxão de orelhas quando alguém se porta mal quer dentro da quadra, quer fora dela. No meu tempo havia um líder”, revelou.

Apesar desta lacuna, Ângelo Victoriano assegurou que a conquista da 27ª edição do Afrobasket 2013 não estará em causa.

“Não é por não termos nesta altura um líder que vamos perder o título africano. Nós vamos ganhar o Afrobasket, é só uma questão de termos paciência.”
MC


Investimento

“Temos que apostar na categoria sub-16”


Numa visão virada para o futuro, o antigo internacional angolano, Ângelo Victoriano, apelou às entidades de direito no sentido de apoiarem com bolsas de estudo todos os integrantes da selecção masculina de sub-16 que em Julho do ano em curso conquistou o primeiro título africano da categoria para o país.

“Gostaria de apelar às entidades de direito no sentido de apoiarem com bolsas de estudo os integrantes da selecção de sub-16, a fim destes, num futuro muito breve, poderem dar o seu contributo à Selecção Nacional sénior.”

Ângelo Vitoriano apontou a Espanha e os Estados Unidos como países ideais para os nossos rapazes darem continuidade aos seus estudos, aliando a prática da modalidade.

Ainda na esteira da formação, o atleta mais titulado do país lamentou por outro lado a partida muito cedo do malogrado Wlademiro Romero, que no seu entender, era dos treinadores que mais trabalhavam a nível da formação.

De acordo com Ângelo Vitoriano, se Angola quiser manter o sonho de dominar o continente africano é necessário fazer-se um investimento muito sério a nível da formação.
MC