Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vamos mostrar ao mundo a nossa capacidade organizativa

Hélder Jeremias - 18 de Junho, 2013

Orlando Graça à frente da selecção nacional e vaticina melhores atletas para a modalidade inseridos no processo de massificação.

Fotografia: João Gomes

ATLETA DO JUVENTUDE DE VIANA
Que avaliação faz da organização do campeonato do mundo de hóquei em patins?

Limitar-me-ei aos aspectos desportivos e não de infra-estrutura, porque isso cabe à Cohoquei. Do pouco que sei, a selecção nacional está a fazer o trabalho desde o ano passado e este ano trabalha bem, porque apresenta bons resultados. Em todos os torneios em que nos inserimos – falo na primeira pessoa, porque pelo facto de ser angolano não me posso apartar disso – tenho visto o trabalho que o técnico e a sua equipa levam adiante, fruto do qual se reflecte no desempenho do conjunto na quadra de jogo. Digo, sem margem para dúvida, que é de louvar. Participamos em vários torneios e com grandes classificações, tendo vencido alguns deles. Em suma, não vejo motivo para alarido, pois trata-se apenas de uma preparação. Espero que estejam melhor, quando chegarem à competição. Um ou outro pormenor deve ser melhorado, mas o treinador está atento e, quanto a isso, estou tranquilo.

Portugal, Espanha, Itália e Argentina são as equipas mais cotadas. Quais são as possibilidades de Angola ocupar um lugar de destaque diante dessas selecções?
No âmbito competitivo, não podemos negar que essas equipas são de longe superiores à nossa – há um grande desnível. Para estarmos em pé de igualdade com Portugal ou qualquer outro conjunto deste quarteto, temos de trabalhar a dobrar com elevados níveis de concentração. Para enfatizar, temos de fazer o que não fazemos, ou seja, trabalhar dia e noite.

Que sistema táctico aconselharia à selecção nacional diante dos adversários do primeiro grupo?
Isto é muito relativo, porque cada adversário tem a sua maneira de jogar, com sistemas tácticos distintos. Deste modo, seria pouco prudente aconselhar um modelo único. Posso dizer que devem defender ao quadrado ou losango. As coisas acontecem jogo após jogo e nenhuma equipa é igual a outra.

Acredita que, a jogar em casa, Angola consiga superar o sexto lugar alcançado na penúltima edição?
Temos de ser optimistas e acreditar nas nossas capacidades, essencialmente, trabalhar de forma a superar a última classificação, a décima primeira. Na verdade, por sermos os anfitriões, contamos com o apoio do público, com factores como o clima e os jogadores vão procurar cumprir com a meta da federação, que passa pela melhoria das duas últimas classificações.

Que diferenças existem entre as selecções do seu tempo e a actual?
Se partirmos do pressuposto de que o Mundo está num processo dinâmico de evolução, implica dizer que as condições de outrora não são as mesmas de hoje. Elas têm tendência em melhorar as condições de treino e de trabalho dos atletas. Portanto, as condições actuais são de longe superiores em relação às que tínhamos. Isso só pode deixar-nos satisfeitos, porque os resultados tendem sempre a melhorar quando os atletas se sentem motivados.

Quais são as grandes diferenças?
Naquela altura não havia, por exemplo, tantos estágios no âmbito da preparação de um campeonato do Mundo. Hoje, já existe a possibilidade do Executivo patrocinar as participações nos determinados torneios – naquela altura não sucedia. Existiam poucos atletas profissionais, ao contrário da actualidade. São algumas diferenças entre as duas épocas.

Quais são os atletas de maior referência na selecção nacional?
Posso ter alguns atletas com os quais melhor me identifico, mas não costumo particularizar, porque todos são importantes, dotados de valores diferenciados. O que se passa é que no desporto existem bons e maus momentos desportivos para qualquer um e isso faz com que, em determinadas alturas, queremos apostar em alguém. Às vezes, ele não se encontra em boa forma desportiva, quando é mais solicitado.

Faltou algum atleta entre os convocados de Orlando Graça?
Acredito que não. Para além de ser um homem atento e ter olheiros na competição interna e externa, a sua convocatória reflecte-se no leque de atletas que garantem a melhor prestação do conjunto. Ele é o responsável máximo da selecção e a sua escolha deve ser respeitada.

Como caracteriza a massificação do hóquei em patins?
Em comparação com os anos anteriores, em que havia dificuldades de ordem material e infra-estruturas, nota-se uma ascendência gradual. As dificuldades faziam com que os jogadores em fim de carreira não encontravam substitutos para darem continuidade aos projectos gizados pela federação, o que implica um hóquei mais massificado. Agora, temos praticantes no Namibe, Malange, Kwanza-Sul e Bié, além de Luanda. Por outro lado, a federação está a apoiar os clubes com programas bem estruturados, o que nos permite dizer que o hóquei está a ser massificado. Todo esse processo vai ser catalisado com a realização do “mundial”. Hoje, já notamos que existe uma febre do hóquei nas camadas mais jovens. Tenho sido interpelado por várias pessoas a solicitarem-me patins.

“Vamos superar todas as expectativas”
 Qual é o sentimento em ver o seu país albergar o primeiro “mundial” no continente africano?
Temos de enaltecer o nosso Executivo e, essencialmente, os membros da Federação Angolana de Patinagem, por serem capazes de colocar as mãos numa empreitada de grande magnitude. Vou a campeonatos mundiais desde o princípio dos anos 90 e, em conversas com outros jogadores de distintos países, constatei que mostravam completo desconhecimento sobre o nosso país, pois não sabiam onde se situava Angola. Alguns até julgavam que vivêssemos na selva. Hoje, estamos a mostrar ao Mundo que temos a mesma capacidade organizacional daqueles países que sempre tiveram o privilégio de juntar a nata do hóquei em patins e, pelo que tenho visto, leva-me a crer que vamos superar todas as expectativas.

Como descreveria o papel da comunicação social angolana sobre a realização do “mundial” em Angola?

Tenho mantido encontros com alguns dirigentes federativos e vejo que tem havido um trabalho extraordinário, ao mesmo tempo que se faz um exercício positivo de marketing. No que à comunicação social diz respeito, podemos aferir que os nossos profissionais de imprensa, quer pública quer privada, estão a revelar-se fundamentais na divulgação do campeonato do Mundo, muito embora esteja a faltar cerca de três meses para o pontapé de saída. O tempo restante parece muito, daí que estou quase certo que a campanha de divulgação vai ser mais agressiva nesta fase derradeira.

DADOS PESSOAIS
Toy Adão é o atleta angolano com maior número de internacionalizações ao serviço da Selecção Nacional de Hóquei em Patins. Com nove participações em campeonatos do Mundo, Toy Adão fez a sua formação no Atlético Petróleos de Luanda e na categoria de sénior passou pelo Juventude de Viana e Académica Clube de Luanda, ao serviço dos quais arrebatou troféus nacionais e continentais, com destaque para a Taça Zé Du, Taça de Angola, campeonatos nacionais, Taça João Garcia, “mundialito” de clubes, campeonatos africanos de clubes, entre outros. É contemporâneo de craques como Vide, Toy Gaspar, Duk, Saha e Lito. Ainda foi a tempo de jogar ao lado dos pilares do hóquei nacional como Orlando Graça, Gil Santos, Mama, Pepe, Kito Paiada, Né Santos, Chupita, Vado, Olim, Samuel, Dino, Jotas e Paulo Patrício (os dois últimos já falecidos) de quem “bebeu” vasta experiência.