Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vejo o nosso futuro com muita confiança

Hélder Jeremias - 24 de Janeiro, 2011

Carlos Moreira diz que falta de apoio retira encanto do motocross

Fotografia: Nuno Flash

O motocross é uma disciplina bastante onerosa. Como consegue os meios para fazer face aos custos?
A questão é pertinente, pois só não fizemos mais porque não tem sido fácil trabalharmos neste projecto, devido à falta de patrocínios. Pessoalmente, faço grandes sacrifícios ao utilizar algumas das minhas economias para a aquisição de equipamentos e atribuição de prémios, quando realizamos provas. É uma dura realidade, mas o amor pelo motocross é mais forte.

Nunca recebeu ajuda das autoridades locais?
Quando iniciámos o projecto, foi-nos cedido terreno para a construção da pista, pela Comissão do Bairro mas, infelizmente, apesar do motocross estar entre os desportos que mais arrasta multidões, quem de direito tende a dar somente importância ao futebol, basquetebol e andebol. Por esse facto, o motocross não encontra espaço para levar alegria a todos os cantos do país. Entretanto, algumas promessas foram feitas. Tivemos a oportunidade de realizar um grande prémio na Lunda-Norte e vamos aguardar até que mais apoios cheguem. 

A que prova se refere?
No ano passado, o Governo daquela província convidou-nos para realizar o Grande Prémio José Eduardo dos Santos, no âmbito do aniversário do Presidente da República, uma prova que foi bem organizada, na qual o público esteve em massa e aplaudiu o espectáculo proporcionado pelos corredores.

Como é que está o vosso vínculo com a Associação Provincial de Luanda?
A nossa relação é salutar. De facto, estivemos um tempo de costas viradas, mas ultrapassámos as nossas diferenças. Agora, trabalhamos em sintonia. Isto para dizer que os pilotos do núcleo estão filiados na Associação e competem no campeonato provincial. Dirigentes da Associação, como Osvaldo Varela e o Roberto Talaia, estão em permanente contacto connosco. Por isso, as coisas correm bem.

Como começa a criação do Núcleo de Motocross de Viana?
Sempre gostei de motocross, porquanto fui um dos precursores, ao lado de vários companheiros, com quem partilhei os circuitos nacionais. Agora, que a idade já não permite, faço questão de acompanhar as novas gerações para que a chama não se apague. Há dois anos, criei o núcleo de Viana, de modo a que os jovens residentes no município também possam praticá-lo. Estamos a fazer tudo para que o desporto cresça.

«« Trabalho com iniciados é exigente »»

No que toca à inserção de jovens pilotos no Núcleo de Viana, quais são os requisitos necessários para a prática do motocross localmente?
O primeiro é a habilidade, passando pela constituição física e a idade. Diariamente, somos contactados por jovens que não reúnem os requisitos, mas que acreditam numa possibilidade de enveredar para a alta competição, pelo facto de conduzirem uma motorizada. Continuamos abertos para todos aqueles que estão à altura de fazer carreira desportiva.

Há jovens com perícia e muita vontade, mas não têm meios para adquirir uma motorizada. Que se lhe oferece dizer?
Infelizmente, pouco ou nada podemos fazer para esses jovens, dados os custos que a modalidade exige. Ainda assim, devo dizer que é nossa pretensão dar formação a todos aqueles que se predispuserem a aprender, desde que as condições permitam. O trabalho com iniciados é muito exigente, razão pela qual se deve primar pelas condições básicas, tais como a existência de equipamentos.

Que balanço faz desde a criação do Núcleo?
É positivo, se tivermos em conta o nível técnico granjeado pelos nossos pilotos, a classificação obtida no campeonato provincial e na prova internacional, realizada em Benguela, onde competiram pilotos tarimbados. Hoje, podemos dizer que os nossos pilotos podem correr em igual circunstância com os melhores que existem no país.

Notamos que existem apenas pilotos do sexo masculino. Será que a modalidade é imprópria para o sexo oposto?
Isto não é0 verdade, até porque no exterior do país existem meninas a competir ao mais alto nível. É verdade que ainda não é a nossa realidade. Auguramos que o trabalho em curso venha a trazer essa valência para dentro dos circuitos a breve trecho.

««« A esperança do Núcleo de Viana »»»

Que comparação se lhe oferece fazer entre o motocross do passado e o do presente?
Cada geração marca o seu tempo. Naquela época, tínhamos limitações na aquisição de motorizadas, equipamentos e dávamos o nosso máximo com os meios que tínhamos. Hoje, independentemente da falta de patrocínios, as condições que o mercado oferece, em termos de meios, supera as do meu tempo. Essa é a justificação para o desenvolvimento dos nossos jovens.

Quais são os pontos mais altos da sua carreira?
Fica difícil falar do ponto mais alto, pois sempre fui um corredor cuja presença no pódio era constante, o que me levou a representar as cores das duas maiores equipas nacionais: a Fabimor e a Unimex. 

E o mais baixo?
O momento em que terminei a carreira de bastante sucesso nas pistas, ao lado de nomes como Bianche, Vitó, Jacinto, Mancha, João Paulo, Guerra, entre outros.

Como encara o futuro dos corredores do Núcleo de Viana, depois de terem feito excelente época, ao lado dos adversários de Luanda?
Gostaria de deixar claro que não é nossa pretensão fazer desafios, mas procuramos criar uma geração que possa representar, não só o nosso município, mas o país no seu todo. Vejo o futuro dos nossos corredores com muita confiança e acredito na capacidade de todos fazerem boas exibições nas respectivas categorias. A nossa grande aposta vai para Victor Moreira, um menino de dez anos de idade, que já demonstra grande talento ao comando da sua motorizadas. Dou todo o meu apoio para que, nos próximos oito anos, se transforme no grande campeão nacional.

Branquinho e Pituca
aspiram troféus nos 250 cc

Branquinho Pina, vice-campeão provincial de Luanda, e Rui Moreira ‘Pituca’, terceiro lugar, ambos na categoria dos 150 cc, preparam com muito afinco as suas estreias na classe dos 250cc e garantem que o objectivo é a conquista de troféus. Os dois craques do Núcleo de Viana sabem que não vai ser fácil impor-se diante de corredores mais antigos da categoria. Mas a crença em superar adversidades está presente na mente dos dois mais sonantes nomes do município satélite de Luanda. Os dois caloiros afirmaram que vão utilizar os meios necessários para levantar o nome de Viana ao mais alto patamar do motocross.

“Estou a adaptar-me bem com a nova motorizada”, disse o jovem Rui Moreira ‘Pituca’, que acrescentou: “faço todos os dias sessões de ginásio”. A manutenção física é imprescindível, mas há outras condicionantes: “tenho a certeza de que durante o campeonato vou estar apto para competir em igual circunstância com os pilotos mais antigos”. Um pensamento positivo para quem vai “infiltrar-se” entre os mais famosos. “O princípio é sempre difícil”, reconhece sem medo, mas “estou para dar o máximo de mim”, de maneira que consiga conquistar troféus.

Quem é quem 

Carlos Mareira

Carlos Moreira, um dos nomes incontornáveis do motocross nacional, fez parte da primeira geração de jovens que perfilaram nos anos 80, ao lado de personalidades como Vitó, Bianche, Talaia, Vadinho, Queimado e tantos outros que levaram o delírio à multidão com as suas acrobacias. Começou a sua intimidade desde a adolescência, tendo conquistado alguns importantes troféus, que lhe atribuíram um lugar no crivo dos mais audazes corredores que a história nacional conhece.

Hoje, com a idade já avançada, procura manter o sonho de ver pilotos angolanos a despontarem entre os melhores do mundo do motocross. Para concretização do sonho, concebeu um dos mais ambiciosos projectos no país: a criação do Núcleo de Motocross de Viana. Os frutos da escola já começam a dar nas vistas. Os corredores instruídos foram o destaque da passada edição do Campeonato Provincial de Luanda, na categoria dos 150cc, tendo a maior parte ascendido à categoria de 250cc, na qual esperam fazer estreia auspiciosa.