Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vieira Dias o tanquista que virou goleador

Augusto Fernandes - 25 de Fevereiro, 2015

O treinador foi-se embora para Portugal com toda a nossa documentao.

Fotografia: Augusto Fernandes

Vieira Dias começou a jogar futebol desde menino, no bairro dos Saiotes, próximo do mercado dos Congolenses. Por volta de 1968, mudou-se para o bairro Nelito Soares, onde conheceu Julião Dias, um dos irmãos mais novos do lendário Firmino Dias.

“ Nesse bairro, realizavam-se muitos jogos entre os miúdos da minha faixa etária, no campo da capela por detrás do campo de São Paulo, lá onde se realizava o kotonoca e nas nossas ruas, onde também às vezes jogávamos  zula contra zuata (uns com  camisa  e outros sem camisa) e eu jogava à  baliza, por simpatia de um primo que jogava no Sporting de Luanda, o Zequinhas, que rivalizava com o Joselito, na época já era bom guarda-redes, mas às vezes gostava de jogar a ponta de lança” começou por dizer o kota VD.

Quando tinha 14 anos, Vieira Dias foi tentar a sorte no Maxinde Futebol Clube. VD conta:  “nessa altura, o senhor Sousa Neto era o treinador e encontrei lá, o Mendinho, Malé, Gamito e outros cujos nomes já não me vêm à memória. De repente surgiu o 25 de Abril e tudo mudou. O treinador foi-se embora para Portugal com toda a nossa documentação. Alistei-me nas fileiras dos pioneiros angolanos e fui para o CIR (Centro de Instrução Hoji-ya-Henda, onde fiz uma recruta.”

Posteriormente, Vieira Dias funcionou no DOM no tempo do comandante Henriques Abranches, que depois foi substituído pelo comandante Eurico Gonçalves. VD diz que passado algum tempo foi necessário enviar alguns jovens para fazer formação militar na República de Cuba. “ Fui um dos escolhidos e fiz parte do primeiro grupo de cadetes formados em Cuba de 1976 a 1979.”

Durante o período de formação na escola General António Macero, aproveitava-se o tempo de lazer para praticar muito desporto. Desse modo, organizou-se uma selecção de futebol composta por jogadores de várias nacionalidades,  que disputavam campeonatos entre escolas militares.  “ A nossa selecção tinha jogadores de grande valia técnica. Eu era o guarda-redes, o actual general Sá Miranda, era o capitão da equipa e defesa central, Capindiça, David,  Mantó e outros faziam parte da equipa principal”.

Entretanto, além da selecção da escola inter-armas, havia uma outra, formada só de angolanos, composta por estudantes militares e civis,  onde VD, Sá Miranda, Capindiça e outros também faziam parte com muito sucesso. “A selecção formada de militares chegou a vencer um campeonato entre escolas.  Sem adivinhar, foi nesse ambiente que me fui preparando para jogar em Angola sem problemas.”

Um dos momentos inesquecíveis em Cuba, conta Vieira Dias, foi ter assistido a um dos primeiros jogos, se não o primeiro jogo dos Palancas Negras fora do país. “Ficamos a saber que a nossa selecção ia jogar a Cuba. Foi um grande momento, organizamos uma mini- claque e fomos apoiar a nossa equipa em Havana, no estádio  local completamente cheio. O treinador era Amílcar Silva e o adjunto o Cata, com jogadores como Dinis, Inguila, Makuéria, o meu primo Gaby, Ndunguidi, e outros. O resultado foi um nulo. Daí em diante, comecei a pensar um dia jogar na selecção nacional.” disse. 

Regresso à Pátria e ingresso no
1º de Agosto


No final do curso de tanques (Blindado), Vieira Dias foi graduado com a patente de 1º tenente, no regresso ao país ficou colocado na escola de oficiais Nicolau Gomes Spencer, no Huambo, como instrutor de táctica ligado a essa área. Algum tempo depois, regressa a Luanda de férias, estava longe de imaginar que não voltava a ocupar a anterior função. Porquê? “Porque enquanto em Luanda, no meu bairro voltei a encontrar-me com Julião Dias, que na época já fazia furor no 1º de Agosto e convidou-me a tentar a sorte no 1º de Agosto”.

Encontrei-me no 1º de Agosto, com Nicola Beraldinelli, no comando técnico, com Napoleão, Ângelo, Lourenço, Luvambo, Garcia, Sansão, Zeca, Ndunguidi, Alves, Chimalanga, Mateus César, Barros, Mascarenhas Amândio, Dongala, Manico, Agostinho,  Zomi e tantos outros.  “Foram esses jogadores que deram a mística ao 1º de Agosto. Era sem sombra de dúvidas a melhor equipa do país, pois era uma selecção militar nacional”. afirmou.

A questão que se punha era saber em que posição ia jogar. Como guarda-redes, o jovem na altura com os 20 anos, em 1979,  não tinha qualquer hipótese diante dos dois melhores guarda-redes do país naquela altura (Napoleão e Ângelo). “ Por isso, o mister Nicola foi-me ensaiando  noutros sectores e em função da minha estatura colocou-me a jogar a ponta de lança. O homem acertou em cheio”.

Entretanto, perante os grandes colossos do ataque militar como Barros, Sansão, Julião e Ndunguidi, inicialmente não foi fácil a VD para se impor. Por isso, embora fizesse parte do plantel do clube, jogava na segunda equipa onde pautava Inglês, Zé Luís, às vezes Julião, Sansão e outros. “O meu primeiro jogo na equipa principal foi no Lubango com o Desportivo da Chela, de Basílio, Lucas, Zé do Pau e outros, tendo marcado o meu primeiro golo pelo 1º de Agosto na vitória por duas bolas a uma” recorda-se.

Primeira convocatória
para os Palancas Negras


Em  1981, VD foi emprestado ao Progresso do Sambizanga, que na época era orientado tecnicamente por Laurindo. O craque conta: “quando cheguei ao Progresso encontrei Luís Cão, Jaime, Praia, Salviano, Santo António, Abreu, Santinho, Eduardo André e outros. Sempre fui titular e marquei muitos golos. Era o grande Progresso do Sambizanga que colocava em sentido qualquer equipa.  Nesse ano o Progresso acabou em segundo ou terceiro lugar se a memoria não me atraiçoa no Girabola, que é considerada a melhor classificação do clube, até hoje.” 

Entretanto, por essa altura, Vieira Dias foi convocado pela primeira vez para representar os Palancas Negras, que participaram nos II Jogos da África Central realizados no nosso país em 1981. “Foi um grande momento na minha vida, tinha atingido o alvo que qualquer jogador almeja: representar a sua selecção. Foi um grande privilégio estar na selecção com Napoleão, Lourenço, Santo António, Maluka, Fusso, Sarmento, Jesus, Ndunguidi,  Amândio, Praia e tantos outros” frisou.

Em 1983, Vieira Dias foi para o Huambo para representar o  Mambrôa, na altura treinado por Vidik e com jogadores como Carnaval, Maria (o pequeno grande jogador) Santo António, Julião Dias, Marques, Lutukuta, Ralph, Santana e muitos outros. VD trás à memória  essa sua incursão: “Fiz uma excelente época, marquei também muitos golos e ajudei a equipa a conquistar o quarto lugar da tabela geral. Além disso, fiz muito boas amizades naquela cidade.”

Ainda no Mambrôa, continua a  recordar-se, o seu grande amigo Julião Dias, tinha tudo para ser o melhor marcador do Girabola naquele ano. “Mas nos últimos três jogos o homem que sempre foi o ‘abono de família’,  parece ter  desaprendido de marcar golos. Tudo fizemos para ajudá-lo, mas em vão. Posso dizer que aquela foi a pior época de Julião no Girabola” disse.

 Dois anos depois de ter sido dispensado em 1983, aos 24 anos de idade, e fruto das boas épocas que fez no Progresso e Mambroa, regressou  ao 1º de Agosto, moldado à Mário Imbeloni,  por ordens do Comandante Ndalu. “Eu estava emprestado ao Mambrôa. Embora o clube quisesse que eu ficasse, não tinha como. Como militar tinha e ainda tenho de cumprir  ordens superiores e regressei ao 1º de Agosto, onde fiquei até 1994. Portanto, tive 15 anos de Girabola” recorda-se VD

Testemunho de um período
negro  que viveu a formação militar

Vieira Dias acompanhou e viveu de perto um dos períodos mais negros do 1º de Agosto, quando ficou cerca de dez anos sem ganhar nenhum título do Girabola, também presenciou a passagem de testemunho da maior parte dos antigos jogadores para os novos. “Aquela geração que tornou o 1º de Agosto num gigante do nosso futebol foi sendo substituída pela geração de Ivo, Novato, Mané, Vitoriano, Russo, Bolefo, Fuidimau, Hélder Cruz, Capelô, Mbila e muitos outros.” 

Vieira Dias ainda fez parte de várias selecções nacionais, que disputaram jogos para as qualificativas aos mundiais e aos Campeonatos Africanos das Nações, mas nunca jogou em nenhum CAN, pois a primeira vez que Angola participou em 1996, já não jogava oficialmente. No entanto, tem boas recordações de umas participações em jogos pelos Palancas Negras. E então recorda-se: “nos III Jogos da África Central em Brazzaville, em 1987 fiz dupla com o Jesus no ataque a jogar a extremo direito e fiz muito boas assistências para ele. Além disso, fiz todos os jogos e ajudei Angola a conquistar o segundo lugar.”

Numa outra ocasião,  foi num jogo de  eliminatórias para o Mundial de 1986 com o Senegal, com vitória de Angola por uma bola a zero no estádio dos Coqueiros, com um golo de Ivo. Na segunda-mão, Angola perdeu por igual resultado e por isso fomos aos penaltes, tendo a sorte sorrido para os Palancas Negras. “Nesse jogo tive um choque com o adversário e lesionei-me com gravidade no joelho e tive de ir a Jugoslávia para ser operado. Por isso, não fiz parte da célebre selecção nacional que foi pura e simplesmente batotada em Argel, quando tínhamos tudo para nos apurarmos para o nosso primeiro mundial” lamentou.

Boas recordações do Girabola

Ainda a respeito do Girabola, Vieira Dias, tem muito boas  recordações. Conta que “em certa ocasião num jogo com o 1º de Maio de Benguela, estando o  Kiala, Fusso, Sarmento Zandú, Maluka, Daniel, Zé Águas, Fidel e companhia, no estádio do Arregaça, até ao intervalo perdíamos por duas bola a uma. Normalmente, o 1º de Agosto ganhava em Benguela e o Maio em Luanda”.

“Na segunda parte, fizemos uma pressão de tal ordem que não sei o que se passou com alguns jogadores do 1º de Maio, começaram a ter disenteria e tinham de sair do campo. Vencemos o jogo por três a dois. Mais tarde ficamos a saber que numa localidade próxima de Benguela havia um combate entre as forças do Governo e da Unita que fora interrompido porque os militares de ambos os lados queriam ouvir o relato.”

Outro momento memorável para Vieira Dias, foi a vitória de 1-0 do 1º de Agosto sobre o Petro de Luanda em 1983. “O falecido António Clemente, estava convencido que ia ganhar, pois o 1º de Agosto tinha sofrido uma sangria com a saída de vários jogadores nucleares e ainda por cima na primeira volta tinham vencido por 2-0. Mas em dia de inspiração vencemos  com golo marcado por mim. Foi motivador para nós” recordou-se.

Ainda em relação ao Girabola, Vieira Dias recorda-se  do jogo que mais lhe marcou  em toda a carreira de futebolista. Foi o jogo com a TAAG, com Zola, Luntandila, Geovety, Chinguito, Rosinha e outros no estádio dos Coqueiros.  “O 1º de Agosto tinha jogado no fim de semana em Cabinda, mas eu não tinha ido. No entanto, a equipa regressou numa terça-feira e eu fui buscar os meus companheiros ao aeroporto e deixei-os no centro de estágio e fui para casa. Não sabia que estava convocado para o jogo com a TAAG, que era o derby nacional. No dia seguinte de manhã o autocarro apareceu em minha casa e disseram-me que eu estava convocado. Fiquei admirado porque não tinha treinado.

Posto no  centro de estágio, o mister Dusan Condic, confirmou a convocatória. Mas eu achava que não estava em condições de jogar de início, ele insistiu. O Julião e o Ivo também deram-me força e lá entrei. Fiz uma grande exibição. No  fim, eu mesmo fiquei admirado,  o treinador e os meus colegas não se cansavam de me elogiar. Ganhamos por 2-0 golos marcados por mim.”

Os títulos que
constam do  currículo


Ao serviço do 1º de Agosto, Vieira Dias ganhou quatro campeonatos nacionais, duas Taças de Angola e duas Supertaças. Jogou desde 1979 até 1981 e de 1983 a 1994. Durante os cerca de 15 anos de Girabola, o nosso entrevistado esteve sempre entre os melhores marcadores da sua equipa e do certame. “Embora nunca tenha ganho nenhum troféu de melhor marcador do Girabola, tive um segundo lugar atrás de Jesus com cerca de 20 ou 18 golos, isto se a memória não me atraiçoa”. frisou.

Em sua  opinião, os defesas que mais impunham respeito “era o Lourenço e o Santo António. Não era fácil passar por esses dois homens. Também tinha certa admiração pelo Quim Sebas. Mas esses dois eram os  temíveis. Em  termos de guarda-redes, o Napoleão Brandão e  o falecido Ângelo sem desprimor para os demais foram os melhores”.

Por outro lado, VD considera que cumpriu a missão de futebolista no 1º de Agosto e na selecção nacional. “Creio que tenho motivos para me sentir feliz por tudo o que fiz. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente e especialmente a Nicolas Beraldinelle, ao kota Laurindo, às Forças Armadas Angolanas e a todos os treinadores pela influência que tiveram na minha vida futebolística” Actualmente, Vieira Dias é brigadeiro no exército e exerce o cargo de vice- director nacional dos Recursos Humanos do Ministério da Defesa Nacional.


Soluções para
revitalização do futebol


Jornal dos Desportos: Em sua opinião o que deve ser feito para tirar o futebol nacional da crise em que se encontra?
Vieira Dias: Bem, primeiro temos de apostar na formação. É um imperativo termos a  noção do que é a formação ou seja, o investimento versos crescimento e desenvolvimento, conhecimento, habilidade, atitude, assim como os valores e o enfoque na sua aplicação. São de facto visível tais competências, em função do estado actual do país, comparativamente aos últimos anos. No entanto, ainda persiste a aplicação  de políticas desportivas  a favor de seus intervenientes. Por exemplo, infra-estruturas e equipamentos desportivos que assegurem a promoção técnico- desportiva nas províncias, municípios e comunas que trarão manifestamente novos Dinizes, Jordões, Zé Pedros, Ndunguidis e outros desde que sejam de igual modo  assegurados os agentes com  conhecimentos na transmissão aos respectivos beneficiários, mas com primazia para os quadros  nacionais. 

Os dirigentes desportivos especialmente no futebol falam muito de corrupção no desporto. O  quese lhe oferece dizer sobre o assunto?
Em minha modesta opinião acho que os dirigentes desportivos nem deviam falar disso. Se há um corrupto tem de haver um corruptor.

Acha que a selecção nacional está bem entregue a Romeu Filemon?
VÀs vezes quando oiço algumas pessoas dizerem que o treinador sicrano ou beltrano não presta ou que o presidente da FAF não entende nada de futebol, fico aborrecido. Mas logo me acalmo, porque em minha opinião quem assim fala esquece-se que quem faz o treinador são os jogadores. Por exemplo: onde jogam os nossos melhores jogadores da diáspora? Em que campeonatos? Temos alguém pelo menos num Benfica? Onde o Burkina Faso, Cabo Verde e outras selecções vão buscar os seus jogadores? Nas melhores equipas da Europa…já foi dito que temos muito que trabalhar.

Acredita que este ano o seu 1º de Agosto vai quebrar o enguiço?
Até agora ainda não vi o material humano que compõe o plantel do 1º de Agosto para esta época. Mas oiço através da media e da boca de alguns homens fortes do clube que este ano o título vai para o “Rio Seco”. Quero acreditar nisto.

POR DENTRO
Nome completo: José Vieira Dias Paulino do Carmo
Filiação: Raul Freire Paulino do Carmo e  Sebastiana de Sousa Van-Dunem
local e data de nascimento: Luanda, aos 19 de Abril de 1959
Estado  civil: Casado com Maria Luísa de Sousa do Carmo
irmãos: 8
Filhos 11
calçado nº : 43
Altura: 1.87 m
Prato preferido: Fungi de bombó com um bom Calulú
Bebida preferida: Vinho
Perfume: desde que tenha um bom aroma topo
Casa e carro próprio: Sim
É ciumento: se haver motivos...
Amigo do coração: Ivo Traça e Julião Dias
Clube do Coração: 1º de Agosto e Sporting de Portugal
Maior sonho: Formar os meus filhos