Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Vim para ser campeão

Augusto Panzo - 10 de Novembro, 2013

Atacante camaronês reconhece potencialidades dos jogadores angolanos

Fotografia: José Soares

O Girabola 2013 consagrou um novo campeão. O Kabuscorp do Palanca “engrossa” o número de equipas que conquistaram a maior prova futebolística nacionall. No plantel que conquistou o inédito título, saltou à vista o ponta-de-lança Albert Meyong Ze, atleta que na estreia na competição se sagrou campeão e melhor marcador da prova, com 20 golos. Para conhecer melhor o camaronês que chegou viu e venceu, o Jornal dos Desportos falou com o atacante que acabou por fazer história ao tornar-se o primeiro estrangeiro a alcançar tal proeza.

 

A sua estreia no futebol angolano foi coroada de êxito ao tornar-se no primeiro estrangeiro a conquistar a “Bota de Prata”. Quando e em que clube começou a sua carreira futebolística?
Comecei a jogar futebol muito cedo e sempre que tivesse tempo ia fazê-lo com outros rapazes do meu bairro, assim como da escola onde estudava. Em função das minhas qualidades, estava a ser acompanhado de perto por vários ‘olheiros’, até que, em 1990, fui convidado a integrar as camadas jovens do Canon Sportif de Yaoundé, um dos clubes mais cotados da República dos Camarões.

Pelos vistos deu mais atenção ao futebol do que aos estudos. O que é que o impulsionou a praticar futebol?

O meu pai sempre recomendou que eu estudasse, mas devido à minha paixão pelo futebol, já que era a aquilo mais me encantava, não consegui cumprir com os seus desejos. As coisas pioraram depois da sua morte, pois a minha mãe não teve possibilidades de suportar o pagamento dos meus estudos. Como sabe, por norma, em África as mães ficam em casa, enquanto os pais procuram o sustento da família. Fui infeliz neste capítulo, porque perdi o pai muito cedo e fiquei praticamente sem apoio.

Isso obrigou-o a direccionar as suas atenções única e simplesmente para o futebol, sem temer o futuro?
Totalmente. Como eu já jogava, comecei a ganhar dinheiro muito cedo, o que levou a minha mãe a protelar, deixando-me continuar a jogar. Acredito que se o meu pai continuasse vivo, teria estudado muito mais. Neste momento, pretendo dar sequência aos meus estudos para aumentar um pouco mais o meu nível académico.
 
Qual foi o segredo para conseguir impor-se numa equipa da dimensão do Canon de Yaoundé, uma das maiores referências do futebol em África e dos Camarões, e depois convencer algumas equipas europeias a contratá-lo?
Nos juniores do Canon de Yaoundé, já trabalhava com os seniores, para além de pertencer à selecção camaronesa das camadas jovens. A partir daí, em 1998-99 deixei os Camarões, porque consegui ter uma oportunidade de ir fazer teste na equipa italiana da Ravena. Na altura eu tinha 18 anos e acabei por ficar lá. Fiz uma época e meia naquele clube, num campeonato que eles chamam de Primavera, e joguei pelos juniores, mas treinava com os seniores do Ravena, que na altura era um clube da segunda divisão.

Por quanto tempo durou essa experiência?
Uma época e meia. Fiquei lá desde meados de 1998 até final de 1999, porque em Janeiro do ano seguinte mudei para o Vitória de Setúbal, de Portugal, onde fiquei até 2005. De lá passei para o Clube de Futebol Belenenses em 2006, onde acabei por me sagrar melhor marcador da Primeira Liga Portuguesa.

E como é que foi a sua passagem pelo futebol espanhol, fala-se também que teve uma passagem por aquele país?
Exactamente. Depois de sair do Belenenses de Portugal, transitei para a Espanha e fui jogar por uma época e meia no Levante, tendo no fim sido emprestado novamente ao Belenenses. Infelizmente neste anonão consegui jogar, porque tinha assinado por dois clubes na mesma temporada.”

Depois dessa paragem obrigatória, qual foi o destino seguinte?

O passo seguinte foi jogar no Sporting de Braga na temporada 2008-2009, onde fiquei cerca de três anos e meio, sendo um dos clubes em que permaneci por mais tempo em Portugal. Depois do Vitória de Setúbal, onde joguei por cinco temporadas, e do Belenenses, onde joguei apenas uma época.


KABUSCORP
Meyong encantado com projecto


Depois de ter representado algumas equipas com uma certa referência em Portugal, o que o motivou a deixar de jogar em clubes da Europa, para voltar a África e vir jogar no clube angolano do Kabuscorp do Palanca, um desconhecido na altura no continente?
Para ser sincero, até determinada altura não me passava pela cabeça voltar a jogar em África, porque inclusive estava bem, pois tinha boas propostas para continuar a jogar na Europa. Mas, depois de manter uma conversa com o presidente Bento Kangamba, quando da sua ida a Setúbal, ele conseguiu convencer-me a vir para Angola jogar pelo Kabuscorp do Palanca. Ele tinha um projecto de formar uma equipa que fosse capaz de se sagrar campeã. Isso sensibilizou-me e aceitei abraçar esse projecto.

Mas fala-se também que a mesma só se efectivou devido à parceria que existe entre o Setúbal e o Kabuscorp?
Exactamente. Foi com base num acordo assinado entre as direcções dos dois clubes.

Como foi a sua adaptação e a relação com os companheiros ao longo deste primeiro ano no Girabola?
Foi excelente. Aliás, se eu consegui atingir o objectivo de ser o melhor marcador foi graças à boa relação com todos os companheiros. Foi fruto de muito trabalho e da união que temos no grupo, pois, sozinho, não conseguia marcar os golos conforme fiz. Senti esta união logo quando fui ter com a equipa, quando do estágio que realizamos em Portugal no princípio dessa temporada. Fui bem recebido e senti que podíamos ter um grupo muito forte e fazer uma boa época e atingirmos o objectivo traçado.

Quando aceitou o desafio de conquistar o título de campeão nacional, o troféu de melhor marcador já estava nos seus planos ou foi acreditando nesta possibilidade à medida que decorria a competição e pelo número de golos que foi marcando?
Sim. Quando eu vim foi com o objectivo de tentar ser campeão do Girabola, porque quando fui contratado, na conversa que tive com o presidente, um dos objectivos traçados foi esse. Vim para ajudar o Kabuscorp a ser campeão. Agora, eu sou avançado e, sendo assim, normalmente um avançado tem de lutar sempre para ser o melhor e eu não podia fugir dessa lógica. Graças a Deus, as coisas correram bem, com a ajuda da equipa consegui tudo, mas não fiz isso sozinho, porque para ser melhor marcador tem que se contar com o empenho de todos, pois o mérito é para a equipa toda. Foi bom tê-lo sido. Contudo, estou mais orgulhoso por ter conseguido conquistar o Girabola”.


ADVERTÊNCIA
"O futebol angolano precisa
 de uma profunda reflexão"


Pela experiência que tem, e por aquilo que viu do futebol angolano, que avaliação faz em termos organizativos?
Volto a frisar aqui que, por aquilo que tem sido o Girabola, a grande falha continua a ser Angola não ter uma selecção com altos níveis competitivos. Infelizmente, tenho de dizer que isso é África e, como tal... Quem assiste aos jogos do Girabola, fica logo com a impressão de que Angola devia ter uma selecção muito forte, pela qualidade de jogadores que o campeonato tem.

Mas parece que essa questão é a nível do continente e talvez por influência da integração de muitos jogadores estrangeiros nas competições internas?

É verdade. Posso mesmo arriscar dizer que esta questão é africana, porque mesmo nos Camarões estamos a passar pela mesma situação, embora sejam realidades diferentes. Os africanos vibram muito pelo futebol e gostam dele, mas os responsáveis dessa modalidade têm de encarar isso com muito mais seriedade, quando o assunto é futebol.     

No seu ponto de vista, qual o grande mal de que enferma o futebol angolano?
Acho que não posso apontar o dedo a este ou aquele, porque não conheço como é que funcionam as coisas aqui em Angola. Só podia falar algo se fosse nos Camarões. Mas sou de opinião de que, quando há falha, ela deve ser assumida por todos e não crucificar apenas uns, apontando o dedo a eles, safando os outros, porque quando há sucesso ele é extensivo para todos.

O que aconselha para se ultrapassar a fase menos boa que o futebol angolano atravessa?
Espero bem que no próximo ano essas coisas sejam resolvidas e que haja uma reflexão de todos para melhorarem o que está mal. E que a perfeição que as equipas têm mostrado no Girabola se traduza na selecção nacional. É algo que espero acontecer, na medida em que Angola merece ter uma selecção em condições.

Entre os projectos que o Kabuscorp tem em carteira para os próximos anos, qual deles é o que mais o impressiona?
A construção do estádio próprio. Não sei ao certo como está este projecto, mas acredito que está bem entregue, porque é um assunto que está a ser bem tratado. Acho que deve ser visto com cautela, na medida em que o Kabuscorp é uma equipa muito jovem, comparada a um 1.º de Agosto, Petro, Interclube, ASA ou Progresso. É um clube pequeno que está a crescer e acho que daqui a um tempo tudo isso vai melhorar.

Que tipo de relações tem mantido com os camaroneses que evoluem no Girabola?
Tenho mantido contacto com todos eles e tem sido normal. Mantenho boas relações com o Etah, o outro que está no Sagrada Esperança, cujo nome não me vem agora à memória, o Eddy Boyon, do Recreativo do Libolo, e há um que está no Benfica, que infelizmente ainda não conheço.

Qual tem sido o sentimento quando estão na condição de adversários?

Somos profissionais e tem havido apenas conversas sobre o cumprimento das orientações daquilo que são os manuais do fair play. Evitar lesões, desejar boa sorte ao adversário e outros, porque apesar da rivalidade em campo, somos acima de tudo amigos e companheiros de profissão. O futebol é uma festa, mas não uma guerra. Às vezes ligo para o Etah, embora não nos consigamos sentar juntos por indisponibilidade de tempo, sobretudo da minha parte.

O que gostava de abordar e não lhe foi questionado?
Foi quase tudo dito, mas devo agradecer tal como sempre o fiz, aos meus companheiros de equipa, por me terem proporcionado a oportunidade de conseguir sagrar-me melhor marcador do Girabola, para além de lançar outro abraço à distância aos nossos adeptos que, diga-se em abono da verdade, foram os grandes impulsionadores da equipa do Kabuscorp, tanto nos momentos de alegria, como de tristeza.


RENOVAÇÃO DO CONTRATO
“Não estou obcecado
por valores monetários”


Para além de praticar futebol, o que mais o cativa cá em Angola?
É muito difícil definir o que mais gosto em Luanda, porque não conheço muito bem a cidade. Saio pouco e quando estou de folga ou férias vou a Portugal, onde vive a minha família. Tirando a comida, que é um pouco semelhante à camaronesa, falta apenas adaptar-me à realidade da capital e conhecer muito mais este belo país.”

Depois de ter passado uma época na solidão, já pensa trazer a sua família para Angola na próxima temporada?
Acho que é um pouco complicado isso acontecer, na medida em que as minhas filhas estudam lá em Portugal e já estão adaptadas à vida daquele país. Cria alguns constrangimentos estar a trocar de escolas, mas vou tentar negociar essa possibilidade com a minha esposa, porque ela também estuda e trabalha.

Está satisfeito com o convite de vir jogar em Angola?

Estou sim e muito contente por ter conhecido este maravilhoso país. Acho que para mim  foi muito bom ter aceite  este convite. Estou a gostar de viver em Angola.

Qual dos contratos lhe foi mais rentável, nas ligações com o Vitória de Setúbal ou com o Kabuscorp do Palanca?
Normalmente os contratos não são divulgados assim. Já tive contratos muito bons. Quando fui jogar no Levante de Espanha tive um contrato muito bom, tal como no Braga e no Vitória de Setúbal.


AVALIAÇÃO
Atacante admira qualidade do Girabola


Que avaliação faz da qualidade do futebol que se prática em Angola, depois daquilo que observou ao longo da temporada?

Fiquei surpreendido, porque pensava que o futebol angolano tinha um nível mais baixo. Acabei por me maravilhar com a sua qualidade, e acho que é um dos melhores de África. O único problema que constatei aqui é a falha na componente táctica, na qual as equipas angolanas têm de trabalhar mais.

Acredita que se melhorarem nestes aspectos, os resultados no futuro podem ser melhores que os actuais?

Os clubes da Europa são tacticamente muito mais fortes, razão que os torna melhores em relação às equipas africanas, mas isso faz parte do próprio futebol africano.

Não acha que tem uma visão errada, na medida em que os resultados da selecção nacional não correspondem com aquilo que disse?
De facto, é uma pena que a competitividade que se verifica no Girabola não se traduza em bons resultados da selecção nacional angolana. Para mim, pelo bom nível competitivo do campeonato, devia no mínimo marcar presença constante no CHAN, porque em nada fica a dever aos outros países que conseguiram chegar lá.

Aceitaria um dia adquirir a nacionalidade angolana se alguém lhe apresentasse esta proposta?

Nem pensar. Não posso ser angolano, porque para além de ser camaronês, também sou português. Tenho dupla nacionalidade, por força da minha relação matrimonial com uma portuguesa. Para além disso, seria impossível porque já disputei vários jogos internacionais com a selecção.  
                                                “AA”


RECONHECIMENTO
“Os nossos adeptos são especiais e fantásticos”


Que impressão teve à primeira vista e ao longo da prova da massa associativa do Kabuscorp?
Simplesmente magnífica, porque nunca vi adeptos assim tão vivos. Acho que este título que acabámos de conquistar foi também um prémio para eles, porque o mereceram, devido ao esforço que empreenderam ao longo de todos os jogos e pela forma como nos acompanharam durante todo o campeonato. Isto é muito importante para uma equipa.

Até que ponto a massa associativa do clube influenciou no vosso comportamento em campo?
Sem dúvidas. O grande exemplo foi o que sucedeu no último jogo com o Petro, onde o adversário não tinha nada mais a ganhar, mas deu uma boa réplica. Os adeptos das duas formações não se cansavam de puxar pelas respectivas equipas. Foi uma grande festa e mostrou que o Girabola é um grande campeonato.