Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Zeca Amaral podia ser seleccionador nacional

Betumeleano Ferro - 23 de Janeiro, 2014

Mendona com futuro incerto

Fotografia: Jos Soares

O internacional Mendonça assegurou ontem ao Jornal dos Desportos, que a trajectória do técnico Zeca Amaral no futebol nacional, devia ser motivo para  a direcção da Federação Angolana de Futebol (FAF)  contratá-lo para substituir Gustavo Ferrín. O médio tem dificuldades em perceber por que o treinador não recebe nova oportunidade para orientar os Palancas Negras.

“ Zeca Amaral merece ser seleccionador nacional, é a opção ideal que nós temos”, sublinhou.
O atleta considera a Federação soberana nas suas decisões, mas ainda assim defende que os melhores têm de ter direito a estar na selecção, pois conhece bem o futebol interno.

“Precisamos de um seleccionador que conheça bem o nosso futebol, uma vez mais o Zeca Amaral acaba por ser o indicado, é mais um requisito que ele preenche em absoluto”, assegurou.

Se estivesse no lugar de Pedro Neto, seu antigo dirigente no 1º de Agosto, Mendonça garante que há muito tinha sido entregue o comando técnico dos Palancas Negras a Zeca Amaral. “Neste momento Zeca Amaral é um dos dois melhores treinadores angolanos, a sua carreira no Campeonato Nacional ajuda a perceber toda a sua dimensão como treinador, se eu pudesse fazer alguma coisa, há muito que o tinha contratado para a selecção”, reafirmou.

Caso Zeca Amaral rejeitasse voltar a orientar a equipa nacional, o nosso interlocutor continuava a manter a aposta num técnico angolano.
“O Romeu Filemon era uma outra boa escolha, é uma aposta para desenvolver um trabalho a longo prazo”, afirmou.

Sem receio de meter a foice na seara da FAF, Mendonça criticou a demora do elenco de Pedro Neto para encontrar um substituto para Gustavo Ferrín.
“O homem já foi demitido há vários meses, então a Federação devia agir de imediato”, assegurou. O médio tem dificuldades em perceber por que a Federação está a desdobrar-se em marcar jogos particulares quando ainda não conseguiu resolver a questão do futuro seleccionador.

“É mais um problema que se quer criar, se não temos treinador por que preocupar-se em agendar jogos, ou vão ‘criar’ um interino para orientar a equipa? Esta é a pergunta que gostava de ver respondida”, sublinhou. 

PALANCAS  NEGRAS
Médio indignado
com a renovação

A renovação dos Palancas Negras na era Ferrín foi “uma brincadeira de mau gosto” que provocou a indignação de Mendonça. O internacional angolano diz que a renovação não obedeceu a critérios lógicos. “Estávamos engajados em várias provas importantes, mas por causa da precipitação e da pressa tiraram o esqueleto que já estava formado, perdemos todos por causa disso”, lamentou.

O rejuvenescimento da equipa nacional tinha de ser feito de maneira natural, mas por razões que o médio nunca percebeu, acabou por ser feito com prejuízo da equipa. “Renovar não pode significar tirar todos e meter outros, como infelizmente se tentou fazer aqui, quando as coisas acontecem dessa maneira é sempre mais complicado dar certo”, garantiu.

À guisa de exemplo, citou a selecção portuguesa, ao longo dos anos os diferentes seleccionadores conseguiram dar oportunidades a novos talentos mas sem sacrificar os mais velhos e experientes.

“Quem está atento sabe que as coisas não acontecem assim de imediato, a geração de Ronaldo ou de Miguel Veloso esperou até chegar a vez, mas mesmo assim não entraram todos à uma, cada geração teve de esperar pela sua vez, infelizmente aqui tentaram tirar e pôr”, lamentou.
BF

FUTURO DAS HONRAS
“Akwá merecia ser ouvido”


Mendonça despontou na época de estreia nos seniores, mas lembra-se que esperou até chegar a sua vez. Ainda assim, apenas conseguiu fazer carreira nas honras porque encontrou quem o amparou nos Palancas Negras.

“Eu na altura já era um jogador de referência, inclusive já estava em Portugal a jogar no Varzim, mas quando cheguei à selecção tive a felicidade de encontrar Joni, Paulão e outros mais velhos que fizeram a transmissão do testamento, se assim não fosse, talvez as coisas não me tivessem corrido bem”, enalteceu.

Sobrevivente da geração de ouro do futebol angolano, Mendonça é de opinião que todos os jogadores que ajudaram a engrandecer as cores nacionais deviam ser chamados para contribuir com os seus conhecimentos.

“Não digo que convocassem todos, mas há os que mais se destacaram, o Akwá é um deles, foi peça fundamental na campanha que nos levou ao Mundial, não sei se há boa relação entre ele e o actual elenco da Federação, mas parece-me que merecia ser ouvido”, concluiu. BF

Mendonça com futuro incerto

O médio Mendonça mostrou-se ontem preocupado com o silêncio de várias equipas que o abordaram em diferentes ocasiões desde o ano passado. Todos os interessados se diziam interessados no seu serviço mas demoram a passar das palavras aos actos, quando a nova época está próxima do seu inicio.

"Neste momento o meu futuro está indefinido, porque me mandaram aguardar mas até agora não acontece nada de concreto", desabafou Mendonça.

Todas as equipas do Girabola começaram a pré-temporada há várias semanas, algumas delas até estão no exterior a estagiar. Este é o motivo por que o médio gostava também de estar a treinar com os colegas para conquistar um lugar no plantel.

"Se tivéssemos chegado a acordo já estava a trabalhar com os meus colegas, mas como até agora ninguém diz nada, tenho de estar a lutar por um lugar numa equipa", lamentou.

Alguns dos clubes interessados garantiram ao internacional Mendonça que o iam contactar em pouco tempo, mas o tempo passou e mudaram o discurso.
"Ainda na semana passada  uma equipa  pediu-me para ter um pouco mais de paciência, alegaram que a situação já estava solucionada, mas  pediram-me para ter mais um pouco de paciência porque o treinador ainda está a fazer a triagem no plantel que encontrou", sublinhou.

O médio confessou ao Jornal dos Desportos que até ao momento nunca chegou à fala com nenhum treinador, todas as conversas foram com dirigentes de equipas.  "Antes mesmo de terminar o campeonato de 2013 foram vários os dirigentes de clubes de Luanda e das províncias que me abordaram, são eles que continuam a mandar-me aguardar.”

O antigo craque do 1º de Agosto nunca viveu situação parecida numa pré-temporada desde que ascendeu aos seniores em 1998, mas como há sempre uma primeira vez para tudo na vida, ele vai continuar à espera que o telefone toque, mesmo depois do começo do campeonato. “Enquanto houver esperança não deixo cair a toalha, até pode aparecer uma  oportunidade na segunda volta.”

A única coisa que Mendonça considera reprovável é aceitar treinar à experiência, seja em que equipa for do futebol nacional. "Jamais vou concordar que façam uma coisa dessas comigo, nunca vou permitir que me desprezem dessa maneira, quem quiser contratar-me que contrate, agora ficar um tempo a ser avaliado não vou aceitar", sublinhou.

MERCADO ASIÁTICO
Médio põe de lado
hipótese de emigrar


A Ásia é uma porta larga de oportunidades para muitos africanos e europeus, mas Mendonça está decidido a resistir à tentação de aceitar assinar por um clube do Médio Oriente, como sucedeu com alguns dos seus colegas.

"Eu já vivi muito tempo fora, muitos sabem que passei largos anos da minha carreira em Portugal, foram anos muito proveitosos para mim mas agora quero permanecer no país, porque nunca mais tenciono emigrar", prometeu.

Os clubes asiáticos costumam pagar a peso de ouro, como também na Europa, mas o médio argumentou que nesta fase da sua vida tem de pensar primeiro na família.

"Tenho uma família constituída à qual sou muito apegado, tenho esposa e filhos ainda pequenos, então uma mudança nesta altura não era o mais sensato, ficar muito distante deles também é algo que não desejo fazer", sublinhou. O médio Mendonça assegura estar disposto a consentir qualquer sacrifício para ficar mais próximo dos seus, mesmo que isto signifique assinar por uma emblema da segunda divisão, dizendo não ser nada de extraordinário ver um jogador com o seu estatuto na Segundona.

"Isso não me ia desvalorizar como atleta, o mais importante é que o clube interessado me apresente um projecto aliciante, se isto acontecer eu estou disponível para alinhar", explicou Mendonça.

Algumas equipas de referência do futebol nacional, como o Libolo e o Caála, estiveram num passado recente na Segundona e desde que ascenderam ao escalão principal têm tido pernas para andar, exemplificou Mendonça.

"É como eu digo, a organização está acima de tudo, porque dá um certo equilíbrio aos atletas, quando não há problemas financeiros há mais vontade de jogar", concluiu. BF


PESQUISA
"Talentos devem ser aproveitados"


Angola tem no exterior talentos com potencial suficiente para engrandecer a Selecção Nacional se forem descobertos com antecedência, garantiu Mendonça. O médio preferiu não mencionar nomes, mas assegurou que há muitos angolanos que emigraram por diversas razões e que jogam ao mais alto nível em países da Europa.

"Muitos foram forçados a sair daqui ainda miúdos, mas conseguiram dar-se bem na carreira, agora é necessário que alguém vá lá buscá-los para virem ajudar a selecção", sublinhou. Mesmo quando estava em Portugal, o médio conseguia notar que a maioria dos angolanos que jogavam em equipas lusas tinham saído de várias províncias do país.

"Quem esteve atento ao percurso da selecção nos últimos anos sabe que os que vinham de fora tinham começado aqui, uns poucos como o Figueiredo, o Rui Marques, só para citar estes, é que sempre jogaram no estrangeiro.” O médio nada tem contra a vinda de atletas filhos de pais angolanos, para ele o mais importante não é o local de nascimento, mas o que de bom o jogador é capaz de trazer aos Palancas Negras.

"Quando falo nos que saíram daqui não quero dizer que os que nasceram lá fora não servem, estava a ser injusto se defendesse esse ponto de vista, porque podia citar nomes de atletas que nasceram e cresceram lá fora mas que foram de grande ajuda para a selecção.” BF

JOGADORES
“Temos pouca qualidade”


Os recentes fracassos dos Palancas Negras fazem Mendonça  mostrar-se preocupado com o futuro da selecção, pois nota que nada está a ser feito para permitir que as mais-valias que existem na Europa sejam descobertas a tempo de defender as cores nacionais.

"Perdemos bons hábitos, infelizmente temos agora poucos jogadores de qualidade, no tempo em que cheguei à selecção as coisas eram totalmente diferentes, porque tínhamos atletas de renome", lembrou.

Embora compreenda os motivos que levaram o público de Luanda a distanciar-se da selecção nos últimos tempos da era Gustavo Ferrín, o médio assegurou que enquanto esteve no balneário nacional nunca viu as bancadas vazias.

"Não me lembro de ter visto isso acontecer, nunca tivemos de fugir de Luanda para ir jogar nas províncias por falta de público, as pessoas queriam ir sempre ao campo porque sabiam que a selecção tinha bons jogadores", disse o internacional angolano.BF